terça-feira, 24 de novembro de 2009

“Entre Cadernos e Bombas”


Há quanto tempo que não escrevo aqui? Que saudades de dissertar sobre o que me intriga e me apaixona. Fim de ano + escola = trabalho em dobro. Por isso apenas agora, na calmaria impecável da madrugada que encontro tempo para escrever sobre o fantástico mundo das crianças. Para escrever esse texto, que merece todo cuidado e dedicação, pois é um texto que se trata de compreensão. Presenciei esse fato no primeiro ano de trabalho em certa escola. Eu era novato na época, tanto na escola quanto no meio educacional particular. Contava apenas com minha experiência e com informações de alguns livros que lia. E com Deus, claro, sempre com Ele. É uma história engraçada, uma história que tem como tema principal “Pedagogas Malucas”, como sempre diz um astuto amigo meu. Nosso personagem dessa história terá o codinome “Pedro”.


Bom dia segunda feira! Lá estava eu acordando pra mais um dia de trabalho em “minha” nova escola onde tudo era branco e flutuava ao andar, rs. Nesse dia resolvi observar bastante o caminho que eu fazia indo para a escola. Observei muita coisa diferente. Contei os andares dos prédios, o número de casas que possuíam dois andares e qual família possuía cachorro vira-latas. Nenhuma.


Andei pela difícil calçada lotada de flores que roubavam uma caminhada fácil. Dessa vez não me irritei com a calçada. Meu humor estava sólido, pelo menos até a porta da escola. Andei e pensei muito. Pensei em todas aquelas vidas com as quais trabalharia nessa segunda feira. Crianças donas do mundo, mas não de si próprias. Pensei sobre quais seriam médicos e em quais seriam varredores de ruas. Pensei em quais viveriam muito, e pensei também, nas que viveriam pouco. Fiquei feliz e triste. Mas era uma tristeza feliz. Pensei em mim junto a elas. Quais delas se lembrariam de mim, quais delas nem ao menos me falariam “oi” ao cruzarmos na rua após uns 10 anos. A escola é a vida enclausurada entre quatro paredes. Depois de um tempo, tudo se espalha. E isso é lindo! Cada um tomando um rumo diferente, rumos de finais felizes e tristes, mas dessa vez esse último, “triste não feliz”. Sim, a vida é cruel, e nós “adultos” mais ainda. Muito lixo humano influenciando dentro dessas quatro paredes. Muito sério e muito lamentável.


Cheguei ao portão da escola. Adeus humor sólido. Olá humor inconstante, que é maleável de acordo com “o que perde o emprego e o que não perde”. Nessa segunda feira minha humildade estava aguçada. Sentia-me um burro sem experiência, eu queria observar e aprender. As crianças como de costume estavam sentadas com suas respectivas professoras, e logo se encaminharam para suas salas. Observei ao longe a Coordenadora Pedagógica junto ao Pedro, ambos conversavam, parecia sério. Fui ao encontro deles, fiquei na posição de observador, eu queria aprender.


Antes quero lhes apresentar o Pedro:



Pedro era um garoto extremamente infantil. Sua única arma era a imaginação. Que é a maior imaginação que conheci até hoje. Tudo na cabeça de Pedro se tornava realidade, realidade essa que assustava coordenadores, supervisores, diretores e professores. A imaginação fazia Pedro se sentir importante, vivo e dominante. “Contaminava” a todos com ela, de modo saudável e nocivo, como toda criança faz, claro. Mas Pedro nunca foi visto como “toda criança”, mas sim como uma ameaça que precisava ser “curada” antes que se tornasse um problema de proporções sociais. Ou seja, queriam proibir Pedro de imaginar, e isso era como tirar a alma do corpo de Pedro, arrisco até dizer que era como matá-lo emocionalmente. Pedro usava sua imaginação para se sentir importante, para ser visto e não se sentir como “mais um no mundo”. Queriam matar a imaginação de Pedro ao invés de desenvolvê-la. Como se tentassem curar uma quase cegueira com uma cegueira completa. Era melhor tapar os olhos de Pedro para o mundo, antes que ele enxergasse demais e desse asas a essa assustadora imaginação. Eles viam Pedro assim, e eu, via Pedro como a criança mais carente, em termos sociais, que já conheci. Ele precisava aprender a ter amigos, ele precisava ser aceito na sala de aula. Ele precisava de colegas que não o achassem “louco”, mas sim colegas que instruídos por um professor, passassem a amá-lo e a entendê-lo como ele era. Não era necessário fazer dele “mais um corriqueiro aluno”, aliás, o mundo está cheio de mesmices que são sempre propícias ao esnobismo humano. Vamos ao fato:



Nesse dia, Pedro, na época com 7 anos, chegou na escola igual todos os dias, arrastando sua mochila de rodinhas e falando suas fantasias. Mas nesse dia Pedro estava dizendo algo que incomodou a coordenação da escola:



Coordenadora: Olá Pedro! Tudo bem?


Pedro: Tudo bem. Sabe, hoje é o último dia de vida de todo mundo dessa escola.


Coordenadora: (Escandalizada) Mas o que é isso que você está dizendo Pedro?


Pedro: (Sorrindo) É que hoje eu trouxe uma bomba na minha mochila, e vou explodir essa escola inteira. Vou fazer todos entenderem quem estão xingando.


Coordenadora: (Levemente assustada) Mas Pedro, não tem bomba nenhuma na sua bolsa, vamos abri-la para procurar. (Abrindo o zíper maior). Está vendo só, não tem nada aqui dentro, só caderno e estojo.


Pedro: (Amando a situação) Mas a bomba está dentro do meu estojo!


Coordenadora: (Abrindo o estojo) Então vamos procurar dentro do estojo...



Nesse momento Pedro fez um barulho de explosão com a boca. A coitada da coordenadora deu um pulo digno de jogador de basquete. Eu observava isso com meus olhos estarrecidos, não me conformava com a ingenuidade da situação. Pedro não se continha de rir, seu plano fora concluído com extremo êxito. Ele havia explodido a imaginação da coordenadora, da maneira mais cômica possível. Eu nesse momento saí correndo, e quase morri de rir escondido atrás de uma arvorezinha da escola. A coordenadora ficou possessa, arrastou Pedro pra diretoria, e teve uma conversa com ele que deve ter sido “extremamente educacional”. Mas Pedro não “melhorava”. Certo dia ele disse para a professora de Educação Física que era mais forte do que ela. Para provar o contrário a professora de educação física o segurou com toda força, e disse pra ele que ia mostrar que ela era mais forte. Lá ficaram os dois, no meio do pátio, por horas a fio. Lá vinha eu buscando alunos e levando alunos para minha aula. E a situação que ocorria no pátio não mudava. A luta continuava, até que acabou a aula, e a professora teve que soltá-lo. Pedro era sim o mais forte, e o mais persistente também. Nesse dia ele nunca arrastou com tanta confiança e alegria sua mochila de rodinhas pelo pátio da escola. Foi seu primeiro dia como vencedor nessa escola, e eu, estava extremamente orgulhoso dele. Pedro não era uma criança corriqueira, e eu sabia disso.



Aprendi muito com Pedro. E não aprendi quase nada com aquelas coordenadoras e professoras. Pedro me ensinou a não desistir de seus dons em hipótese alguma! Pedro nunca iria parar de imaginar, e ele deixou isso claro a todas as professoras, que de tempos em tempos diziam “Eu desisto do Pedro, ele não tem solução”. Eu, ao contrário, já enxerguei um excelente potencial em Pedro, e prometi ao seu pai e mãe, que se me confiassem a imaginação de seu filho, eu iria desenvolvê-la o máximo possível. Pedro faz aulas de teatro comigo até hoje. Seis anos se passaram, e Pedro cresceu seis anos. Nunca me desrespeitou em hipótese alguma, e também, nunca tentou me explodir com bombas ou até mesmo medir forças. Pedro sabia que eu reconhecia seu potencial, ele não precisava me provar nada, ele estava feliz, e isso bastava. Pedro é extremamente aceito no seu atual meio teatral, pois sua imaginação, agora desenvolvida, se tornou atrativo para todos. Pedro é um ator impecável. Criativo, concentrado e fiel a arte. Cria a todo momento e me ensina a todo instante. Não preciso falar duas vezes, pois pra ele, escutar apenas uma vez já basta. Ele é inteligente, aprende fácil, amadurece fácil. Pai e mãe privilegiados, e nem sabiam disso, pois os elogios tardaram a chegar.


Pessoas como Pedro existem em todos os lugares, poucas bem sucedidas, muitas frustradas pela vida. Pessoas “diferentes” são cortadas da sociedade, pois desrespeitam o padrão corriqueiro. Mudam o que já funciona há séculos. Para eles, é melhor deixar tudo quieto. Mas são crianças como Pedro que mudam e abrilhantam a humanidade. Crianças que um dia se tornaram Leonardo DaVince, Einstein, Beethoven, Van Gogh e Salvador Dali nunca pintaram, desenharam, compuseram ou criaram como os seus corriqueiros colegas de escola. Fizeram diferença e acrescentaram algo a mais! Pedro ainda será uma pessoa de sucesso, tenho certeza, pois ele pensa adiante. Não são raras as aulas em que ele chega recitando poemas de Homero, poemas que eu, estudante de artes, nem conhecia. Ele faz isso com amor e sabedoria, sede infinita pelo conhecimento.


Enfrentar o normal é fácil. Enfrentar o NOVO é se sentir VIVO! Há uma grande diferença nisso tudo.



“Imaginação de criança não é brincadeira”.



5 comentários:

Unknown disse...

Essa da bomba eu conhecia, ahahahah, sempre amei essa história. Que lindo menino.
Até que vc teve uma conclusão positiva a respeito da história da "medir forças" no pátio, vc foi bonzinho. Eu achei uma estratégia infeliz da professora. Criança nenhuma tem que passar por isso. Ali, foi um embate que muito provavelmente um adulto não enfrentaria. É uma situação humilhante, de um peso emocional muito grande. "Eu sou mais forte que você" E daí?? Porque a ridícula tinha que provar que é mais forte? Uma pessoa "normal" e "amável" diria, "sim, você é mais forte que eu, pois é um homem, e é saudável, esperto, bla, bla, bla" Se destrinchar essa atitude dela, vou longe! Que nojo!

Adriana disse...

Hoje tirei tempo p/a ler essa facinante históra!BRAVO!
Querido Dja, qo vc vai publicar essas histórias p/a que o mundo as conheça??? Qdo vc vai publicar suas peças teatrais???qdo??????
Já conhecia a história de " Pedro" ,mas a forma como vc escreve dá um novo tom, uma nova dimensão de como ver a história pela 1ª vez e isso é incrível!!
Com certeza os pais de "Pedro" perceberam que vc estava certo e realmente ele é um grande artista mirim.

Richard Becker disse...

I have no specific coment, but I am impressed with djmal's stories that he has written.

- K. disse...

Ele é uma belezinha... Realmente é um menino de ouro! Ainda bem que nem todos somos como essa 'vaca' (né Djalma?) e somos capazes de reconhecer o potencial que o 'Pedro' tem =)

Unknown disse...

Uma ótima moral pra uma história que parecia ser triste. E vc escreve muito bem! É a primeira vez que leio seu blog e pretendo continuar;
Parabéns. ^^