sábado, 1 de novembro de 2008

“Histórias de Amargar”

Iniciei minha profissão de professor muito jovem. Logo de cara quis enfrentar os maiores problemas que envolvem a profissão. Sentia que o fácil não me agradaria. O difícil me desafiou desde o início, e sempre corri em direção a ele. Todos nós profissionais da educação poderíamos passar horas contando histórias que vivenciamos. O problema que poucos de nós conseguiria contar do real ponto de vista. Apenas alguns engolem a amargura de difíceis dias de professor. A história que contarei abaixo vivenciei em um único dia. Foi uma experiência inesquecível.


Moro em uma cidade onde existem muitas escolas rurais, cada uma em um bairro especifico. Existem umas que ficam tão afastadas da cidade que quando chegamos nelas é difícil acreditar que ainda estamos no mesmo município. Uma amiga minha, chamada Tati, que trabalha em uma dessas escolas rurais, um dia me convidou para ministrar uma aula de teatro para os alunos dela e da outra sala da tal escola rural. Ela (muito esperta, rs!), logo me “atiçou” explicando a realidade dos alunos com os quais eu lidaria. É claro que ela deixou que eu descobrisse as maiores surpresas por conta própria, mas o que ela me contou de inicio já foi o suficiente para que eu aceitasse o convite sem pensar duas vezes.

Acordei bem cedinho (especificamente ás 05:30 da madrugada! rs!), e fui até o ponto onde pegaríamos a condução. A viagem até a escola parecia uma eternidade, eu nunca imaginei que existia um bairro tão afastado da cidade como esse. Chegamos ao tal bairro, que se distribui por um morro bem ao lado da estrada que paramos. O bairro era minúsculo, e logo de cara consegui contar nele 3 bares. No bar mais próximo, estavam 4 senhores sentados a mesa, que olhavam Tati e a mim com um olhar vazio, nos olhavam como se fossemos invasores. Ela logo me disse que essa reação era normal.

Andando pelas ruas do bairro (ruas precárias e sujas), Tati me disse que antes de ir para a escola, tínhamos que buscar uma aluna. Eu logo perguntei o porque da necessidade de buscar essa aluna, e ela me explicou que se tratava de uma menina de 8 anos que possuía depressão infantil. A menina se trancava no banheiro e só a ela (a Tati) conseguia tirá-la de lá. A casa da menina era muito velha e humilde. Rapidinho saiu de lá Tati com a aluna. Uma menina bem pequena, com um corpo visivelmente fraco. A aparência da menina era péssima. Olheiras profundas e andar desengonçado. A menina foi andando á nossa frente, e aproveitando essa oportunidade, Tati em contou que essa garota era filha do avó com a irmã. Ou seja, o pai molestou a filha, e disso nasceu essa menina cheia de problemas de saúde. Ser irmã da mãe, e filha do avô não deve ser fácil. Cortou meu coração ver o caminhar daquela criança. Daquela criança que não entendia a própria vida.
Chegamos à escola. Péssima! A pior estrutura que já vi, se é que aquilo pode ser chamada de escola. A “escola” eram duas salas de blocos a vista, que ficavam lado a lado, divididas por uma parede que ainda não estava terminada. Escutava-se tudo da sala ao lado, era impossível ministrar aulas ali. E o pior de tudo. Em uma sala funcionavam a 1º e 2º série do ensino fundamental juntas, e na outra a 3º e 4º série do ensino fundamental, também juntas.
“Funcionavam”? Fui gentil em usar essa palavra.


Os alunos eram estranhos. Todos de idades diferentes um do outro. Pré adolescentes de 12 anos juntos com crianças de apenas 8 anos. Uma mistura heterogênea, que nunca produziria resultados. Primeiro fui conhecer a sala da Tati, que era a sala da 1º e 2º série. Conversei com eles. Tímidos, mal me olhavam nos olhos. Crianças sem esperança alguma, machucadas pela vida, crianças que nunca foram crianças. Conversei com eles, lhes fiz perguntas, poucos responderam. A Tati logo lhes deu uma atividade para fazer, logo depois me chamou a mesa dela para me mostrar umas redações que esses alunos haviam feito. O tema das redações era “Drogas”. Li todas, e teve uma, que quando li me arrepiou. A redação foi escrita por um menino de 8 anos, com uma caligrafia difícil e palavras assustadoras. Vou transcrever essa redação abaixo, com as palavras dele, que ainda existem na minha memória:

“ O Uso de Drogas


Meu pai chegava fumado de maconha e cheirado de cocaína em casa. Ele batia na minha mãe, em mim e na minha irmã. Na minha irmã não tinha problema ele bater, pois minha mãe me disse que ela tem uma “solitária” na cabeça e vai morrer logo. Mas em mim e na minha mãe ele não podia bater. Meu pai devia dinheiro pra um homem, esse homem ficou bravo e matou meu pai. Agora que meu pai morreu somos felizes.”

Era basicamente isso. O que comentar? Nada a comentar. A irmã desse garoto estudava nessa sala também, e logo a conheci. Uma menina muito obesa, loira, de olhos azuis e pele queimada pelo sol. A solitária havia sido curada, retirada dela há um mês atrás, graças a uma assistente de saúde que visitou o bairro e ficou sabendo do caso. GRAÇAS A DEUS.
Levei essa e a outra sala juntas até o terreno que ficava ao fundo da escola, para ministrar uma aula de teatro. Como as salas eram pequenas, pude trabalhar com elas juntas. Conversei muito com eles antes de qualquer coisas. Contei piadas, eles riram. Perguntei sobre o que eles achavam da escola, eles não responderam. Perguntei quem ali era feliz, todos levantaram as mãos. Perguntei quem era triste, apenas um levantou a mão. Levantou apenas a mão, pois a cabeça continuava como sempre, abaixada, olhar fixo no chão. Perguntei a ele:

Eu: Você pode me contar porque é triste?
João: (Esse era o nome desse garoto) Você quer saber mesmo?
Eu: Claro, adoraria escutar.
João: Sabe o que é “Tiu”. Minha mãe levou um homem pra morar com ela lá em casa agora. E esse homem não gosta de mim.
Eu: Mas por que ele não gosta de você?
João: (Ainda olhando para o chão) Ah “Tiu”, tem noite que ele não deixa eu dormir dentro de casa. E ontem choveu sabe, daí eu tive que dormir no galinheiro, molhou todo meu caderno.
Eu ao escutar isso fiquei petrificado. Parado no tempo. Sem reação. Insisti:

Eu: Mas por que ele não deixa você dormir dentro de casa?
João: Ah “Tiu”, é que ele quer fazer “as coisas” com a minha mãe né? Daí ele não gosta que eu fico dentro de casa.
Eu: E como é que você sabe que ele faz “coisas” com a sua mãe?
João: É só ir na janela que a gente vê né?


E todos na roda soltaram uma sarcástica risada. Não existia inocência ali. Quem sabe, nem mesmo pureza.


Continuei com a aula, com uma única coisa em meu pensamento, que chegando na cidade ia direto no conselho tutelar denunciar essa família. E é lógico que FUI, mas essa é outra história.
Conheci outro garoto. Um garoto cego. Que estudava ali também. A professora dele me explicou que ele ficou cego jogando futebol. Ele caiu e bateu com a cabeça violentamente em uma pedra. Perdeu a visão. Esse garoto adorava escutar músicas. Mas ele só podia escuta-lás quando o pai o deixava relar no rádio. Essas vezes eram raras. Comprei um rádio para ele, mas depois fiquei sabendo que a grande usuária do mesmo era a mãe. Que descaso meu Deus. Que lugar era esse? Não sei, até hoje não sei. O bairro era um quarteirão, um quarteirão com 5 bares, que serviam de farmácia, papelaria. As crianças compravam cadernos e lápis em meio a bebedeiras dos adultos.
Chegou a hora de ir embora. Estávamos na estrada esperando a condução. Enxerguei do outro lado um dos alunos sentado na beira da estrada. Fui até ele. Ele se chamava Paulo:

Eu: Oi Paulo. O que você está fazendo sentado aí?
Paulo: Eu estou esperando meu amigo chegar da escola dele, pra brincar com ele. “Jajá” ele chega.
Eu: Mas você só tem ele como amigo? Não têm outros aqui para você brincar?
Paulo: Tenho sim, mas eu gosto de ir brincar na casa dele, pois ele é o único que me oferece coisas pra comer.

Meu Deus! Eu podia ter ficado sem essa!

Não estava mais agüentando tanta tristeza. Tati me explicou que os pais desse menino moravam em uma fazenda muito afastada desse bairro e só podiam buscá-lo por volta das 19:00. Então ele almoçava a merenda escolar, e passava o dia todo se alimentando de favores do pessoal do bairro. Um menino de 7 anos de idade, se alimentando por favores. Cruel.


O ônibus chegou. Entrei calado, viajei calado, desci calado. Precisava processar isso tudo. Cheguei em casa, vi aquele almoço pronto, almoço que eu muitas vezes joguei no lixo. Fiz meu prato de comida. Sentei-me frente a ele, e fiquei imaginando aquele menino sentado na beira da estrada, pensando no que iria comer, isso se comesse. Almocei. Comi como se comesse pela primeira vez na minha vida. Senti o verdadeiro gosto dos alimentos. E agradeci a Deus, agradeci muito a Deus pelo que estava mastigando. Aliás, agradeci á Deus por tudo. Pela minha casa, minha escola, minha saúde, meus pais, meu emprego. POR MINHA VIDA!


Lugares como esse bairro? Existem muitos no Brasil, piores até, muito piores, O problema é que ninguém enxerga. Preferimos enxergar o bonito ao feio. Olhos fechados, vida mal vivida. Viver é ajudar, proporcionar oportunidades. Não deixar pra trás aquilo que está ao nosso alcance. Como aquelas crianças dormem? Quanto tempo elas dormem? Elas dormem? O que elas comem? Como são tratadas pelos seus pais? São abraçadas? São beijadas? Essas crianças são amadas? Não sei... acho que não.

Vida de professor. VIDA!

domingo, 12 de outubro de 2008

Conversas Típicas da "Hora do Lanche"

Sentar a mesa para almoçar, jantar, tomar café da tarde. Que horários agradabilíssimos! Nesses momentos sempre surgem assuntos importantes, assuntos sobre o dia a dia, idéias no geral.


Acho que todos também, em horários de almoço ou janta, já devem ter muitas vezes conversado assuntos não muito propícios ao momento, assunto esses que qualificamos como “nojentos”. Quantas vezes conversamos assuntos nauseantes na hora de comer? Sempre tentamos evitá-los, mas é inevitável, eles sempre surgem.
Na “Hora do Lanche”, no ambiente escolar, não é diferente. Tenho como hábito rondar as mesas dos meus alunos enquanto eles lancham. Amo escutar os assuntos, os “papos”. Conversas sobre seus desenhos preferidos, machucados, castigos, vídeo-game, esportes, roupas, brinquedos, família, etc. São assuntos maravilhosos, contados de maneira natural, única da criança. Partes aumentadas, mentiras sadias ao “ego”, apimentadas. A visão da criança sobre os fatos é magnífica. Uma vez escutei uma aluna dizendo a outra coleguinha que viu o pai tentando colocar o sapato da mãe no pé. Observações únicas. Segredos de profissão, rs!


Um dia fui surpreendido com uma conversa “nojenta” na hora do lanche. Resolvi contá-la aqui porque ela foi de uma análise hilária. Essa conversa foi entre dois alunos de 5 anos, estudantes do Pré 2 da Educação Infantil. Vou chamá-los de Anderson e Leandro.
Estavam os dois na mesa do lanche. Ambos tomando iogurte, e se deliciando filosoficamente no assunto que vou contar. Eu estava andando por ali, quando de repente escutei a primeira frase:


Leandro: (Em um tom de novidade) Anderson, você sabia que o xixi é mais forte do que o cocô?
Anderson: Sério? Mas por quê?
Leandro: Porque quando você faz xixi em cima do cocô, ele desmancha!
Anderson: (Após refletir por um momento) Mas claro que não, isso não é verdade! O cocô é muito mais forte do que o xixi!
Leandro: Mas por quê?
Anderson: (Decidido) Porque se você jogar um fósforo aceso em cima de um cocô, ele explode o xixi!
Leandro: (Após também refletir um pouco) É, você tem razão...


E continuaram a comer o lanche, rs!


Muitos poderiam ter achado essa conversa ridícula, e muitos professores poderiam ter deixado-a passar despercebida. Mas não foi somente o conteúdo da conversa que me impressionou, mas sim a naturalidade da conversa, a análise sobre o assunto. Foi muito engraçado.
Quantas vezes nós mesmos “adultos” não conversamos assuntos surreais, absurdos, podres? E morremos de rir com tais situações. Crianças são nossas cópias, ou somos uma ligeira cópia delas?


“Conversa de Criança REALMENTE não é brincadeira!”

terça-feira, 30 de setembro de 2008

“Mocréias sem Vocação”


Analisar a postura de outro professor é um tanto complicado, pois de certa forma, impessoalmente trata-se de um colega de trabalho. Por isso escrevo esse acontecimento com tranqüilidade, pois quando ele aconteceu eu me encontrava na posição de aluno.


O titulo da postagem pode parecer um pouco ofensivo, mas não é. Eu simplesmente não consegui colocar outro.
Tenho uma amiga, com a qual posso conversar por horas, dias, semanas, e mesmo assim não me canso. Possuímos uma grande ligação mental, e por isso combinamos de várias maneiras, em dezenas de opiniões e idéias. “Mocréias Sem Vocação” seria o titulo do Trabalho de Conclusão de curso dessa minha amiga na faculdade, onde nele seriam feitas análises de situações que provam a existência de vários professores que não possuem um pingo de talento e vocação. Mas o medo de que houvesse uma Mocréia sem Vocação na banca de avaliação do trabalho, fez com que essa minha amiga desistisse dessa Grande Idéia de projeto de pesquisa. Uma pena, uma grande pena.
Devido a esse motivo, não pude escolher um outro titulo para o fato que irei contar. Esse título é simplesmente delicioso, rs! E descreve muito bem a professora que me causou um trauma que persiste até hoje. Podem rir a vontade dessa história, eu deixo, rs. Ela é de um absurdo tão grande que se torna até engraçada.
Não vou especificar a idade que eu tinha quando passei por essa situação, mas vou dizer que foi entre meus 5 e 8 anos de idade. Muitos me perguntam como consigo lembrar dela com tantos detalhes, mas foi uma situação tão complicada naquele momento, tão humilhante, que me lembro até da roupa que a professora estava, a sala de aula em que isso ocorreu, a posição da professora na sala de aula. Lembro-me de absolutamente tudo. Vamos ao fato então:

Era dia 01 de Junho. Lembro-me do dia pois é meu aniversário. Estávamos sentados todos na sala de aula, e incrivelmente me lembro que era uma aula de Matemática, pois tenho uma vaga imagem de números desenhados no quadro. Nesse dia não era somente o meu aniversário, um menino da sala de aula chamado Diego, também estava aniversariando. Esse Diego era muito querido pela professora, e isso era extremamente perceptível por todos nós alunos. Ela sempre dava preferência para ele, em tudo. Ele era a referência de bom aluno para todos nós “péssimos” alunos da sala de aula. Até os erros do Diego eram acertos. Todos queriam ser como Diego, mas não para SER o Diego, mas sim para RECEBER a atenção da professora que só ele recebia.
A professora, claro, não esqueceu o aniversário do Diego. Ela já logo entrou na sala de aula com uma cara de “Parabéns pra Você” e abraçou o Diego, que estava super feliz. Em voz alta a professora disse para a sala toda:


Professora: (Com uma alegria incontrolável) Crianças, crianças! Silêncio! (A sala se aquietou). Hoje é aniversário do Diego, vamos cantar “parabéns” para ele!


A sala toda cantou “Parabéns pra Você” para o Diego, com grande alegria. Todos amavam Diego, ou melhor, amavam o que ele tinha de diferente para ser tão elogiado pela professora.


POXA! ERA O MEU ANIVERSÁRIO TAMBÉM!


Mas é claro que a professora não se lembrou. Claro, como ela poderia se lembrar do meu aniversario se eu não era o Diego? Seria esforço demais pra ela, rs!
Minha coleguinha que sentava na carteira da frente, logo percebeu que eu estava muito triste com a situação. Essa menina se chamava Renata e logo ela me perguntou:



Renata: Djalma, porque você está triste?
Eu: (Muito triste) Você não conta pra ninguém Renata?
Renata: Claro que não, eu juro.
Eu: É que hoje é meu aniversario também, e a professora não cantou parabéns pra mim.




Talvez Renata estivesse com os dedos cruzados quando fez a promessa de não contar a ninguém, pois segundos depois lá estava ela contando para a professora que eu estava triste porque era meu aniversario também e não cantaram parabéns pra mim. A professora, com a cara mais inconformada possível, se levantou da cadeira e disse assim para todos:



Professora: Geeeeeeente, o Djalma ficou com dor de cotovelo (e enquanto isso ela esfregava o próprio cotovelo) porque só cantamos parabéns pro Diego. Vamos cantar parabéns pra ele também?




E com a voz mais mole do mundo ela começou um desanimante “Parabéns pra Você”, que lógico, foi imitado pela sala toda. Lembro-me que ela batia palmas com uma moleza incrível, enquanto entortava o olho pra cima em uma expressão de “Que saco esse menino!”.
Eu? Escutei esse “Parabéns pra Você” de cabeça baixa em minha carteira, forçando para não chorar. Senti-me muito humilhado, envergonhado. Fui motivo de “chacota” para os colegas o dia todo. A professora deixou bem claro para todos alunos da sala de aula que eu estava com “dor de cotovelo”.
Depois desse “Lindo Parabéns pra Você”, quem disse que eu conseguia receber próximos em minhas festas de aniversário? Minhas três festas seguidas de aniversario foram sem “Parabéns pra Você”, pois quando começavam cantar eu saia correndo e me trancava no quarto, e a coitada da minha Mãe ficava sem entender absolutamente nada, pois eu não tinha contado o fato para ela.

Até hoje é difícil receber a música “Parabéns pra Você” em minhas festas de aniversário. Confesso que na minha festa de 18 anos precisei segurar a mão de uma amiga enquanto todos esperavam para que eu “Apagasse as Velinhas”. Sinto muita vergonha, sinto como se não merecesse os “Parabéns”.
Acredito FIELMENTE na teoria de “Que aqui se faz, aqui se paga”. Deus fez o Planeta redondo para no ensinar que as coisas sempre param no mesmo lugar, mais cedo ou mais tarde. Digo isso, pois uns anos mais tarde entra uma nova aluna na escola que eu trabalhava. Essa aluna era filha da Professora que me humilhou. E agora o MELHOR de tudo, vocês não vão acreditar! Adivinhem em que dia a filha dessa Professora nasceu? Sim, no dia 01 de Junho, no dia do meu aniversário! Quando eu descobri isso destampei a rir descontroladamente. Ri muito mesmo! Imagina o terror dessa professora quando soubesse que eu era professor da menina. Ela ia morrer de medo que eu massacrasse a filha dela com um estrondoso “Parabéns pra Você”. Que nada, rs. Acredito que são nesses momentos que Deus nos coloca a prova. Sempre fiz questão de que em todo dia 01 de Junho cantassem “Parabéns pra Você” para essa menina, como para todos os outros alunos da sala em seus respectivos aniversários. Eu nunca cometeria o mesmo erro que minha Professora cometeu, nunca chegaria ao nível. Como já escreveu o mestre Roberto Bolaños (Chaves) “A vingança Nunca é Plena, Mata a Alma e a Envenena”, rs! Como também sempre me disse minha professora de Teatro: “Nossos alunos de hoje são nossos médicos de amanhã Djalma, cuide bem deles para depois eles cuidarem bem de você”, rs!
Ser professor não e fácil. É uma profissão delicada. Envolve dedicação, postura, destreza, amor, técnica, profissionalismo e VOCAÇÃO! Não é para qualquer um. Crianças são seres sensíveis, com alma pura e delicada. Não podemos pisoteá-las, esse é um pecado imperdoável. As crianças nunca deixam escapar nada, elas estão sempre atentas, “antenadas” no mundo que as rodeia, nesse mundo maluco e interessante. Se você parar pra ver, irá perceber que elas sabem mais sobre você do que você sobre elas. As crianças são decisivas, ou elas gostam ou elas não gostam. As crianças são uma lição de vida, que deve ser assistida e cuidada de perto. Para elas crescerem bem, fazerem o bem, SEMPRE!

quinta-feira, 18 de setembro de 2008

Uma História de Renovação!


Existem alunos que nós Professores nunca esquecemos, seja ele arteiro, esperto, gentil. Existem alunos que simplesmente marcam nossa vida. Não é uma questão de preferência, é apenas uma questão de ligação, e empatia. Aliás, nós Professores somos humanos também, rs!


Acredito que essa será uma boa história de abertura, uma história que foi um tremendo “lava cara” para mim. Vou chamar esse menino de Pedro. Na época ele tinha 6 anos de idade, era aluno do antigo “Pré-3”, que hoje é o 1º Ano do Ensino Fundamental.


Pedro era um menino muito carente, principalmente de pai. O pai era um homem “grosso” que não tinha a mínima paciência com Pedro. Pedro sempre chegava atrasado na escola, e também era o ultimo a ir embora. Me lembro de um dia, que a Diretora da Escola, pediu ao pai de Pedro que viesse buscá-lo no horário correto da Saída, pois Pedro sempre era o ultimo a ir embora, ficava lá no banco, sentado, horas a fio com a atenção fixa no barulho dos carros que viravam a esquina da rua da Escola. Nesse dia, o pai de Pedro disse assim para a Diretora, com essas exatas palavras que não dá para esquecer:


Pai do Pedro: Além de pagar essa escola, você ainda quer exigir que eu busque ele na hora certa? Por mim eu deixava esse menino aqui na segunda e buscava ele só na sexta!


E lá estava Pedro, sentado no banco, escutando essas “doces” palavras que eram “recitadas” por seu pai, pelo homem que tinha lhe dado a vida, pelo homem que ele mais amava no mundo.
Esses fatos auto-explicavam a carência de Pedro.

Toda vez que ele chegava na escola, a primeira coisa que Pedro fazia era me procurar, para me dar um abraço e um beijo, e lógico, para ao mesmo tempo, recebê-los. Acho que Pedro me enxergava em sua vida como uma figura Paterna. Eu sempre tentava impedir isso, pois eu era apenas o Professor, e não o pai. Mas era difícil. Pedro era o “filho sonho” de qualquer pai, o único que não enxergava isso era o pai do Pedro, aquele babaca (me desculpem rs)! Um dia perguntei para ele:


Eu: E aí Pedro? Como foi seu dia hoje?
Pedro: Hoje Professor Djalma, aconteceu uma coisa “muito alegria” lá em casa!
Eu: (Com a maior felicidade) Mas isso é ótimo! O que foi que aconteceu de alegre na sua casa?
Pedro: (Com uma voz amarga) Eu derrubei sem querer o prato do almoço hoje, daí meu pai ficou muito bravo. Ele pegou o meu fantoche “Alegria” e com ele bateu em mim.


Eu simplesmente fiquei mudo, não sabia o que falar. Mas arrisquei:


Eu: E você esta bem Pedro? Seu pai te machucou muito?
Pedro: Estou bem sim, só te contei porque você perguntou mesmo. Mas sabe Professor Djalma, vou te contar um segredo. Eu joguei o “Alegria” no lixo! Não gosto mais dele.


E Pedro foi para a sala. Eu fiquei ali, parado, boquiaberto, observando aquele menino indo para a sala, o caminhar dele era triste, tudo nele era triste.


Enfim! Agora o fato marcante que vivi com Pedro.


Tem dias que estamos um tremendo “Stress”. Não queremos fazer nada, MUITO MENOS ir trabalhar. Mas fazer o que? Professor é o que mais tem por ai e não podemos dar brecha rs!

Acordei muito mal, tinham acontecido umas coisas péssimas na minha vida, e eu estava muito mal mesmo. Segui a rotina, arrumei minhas coisas e fui trabalhar. Cheguei na escola e sentei na mesa para organizar uns papéis antes de ir pegar a sala. Como de costume, lá veio o Pedro, atrasado como sempre, com a “lancheira” pendurada de um lado e segurando as pesadas apostilas. Nem mochila o menino tinha, era um descaso total!
Pedro veio e me deu um abraço e um beijo. Ele imediatamente percebeu que eu não estava bem, ele possuía uma sensibilidade incrível! Com a maior cara de dúvida do mundo ele me perguntou:


Pedro: Professor Djalma, está tudo bem com você?
Eu: (Pensei rápido, mas desabafei) Sabe Pedro, existem dias que eu sinto vontade de nascer de novo.
Pedro: (Sem entender nada) Nascer de novo?
Eu: (Um pouco mais a vontade) É, nascer de novo, recomeçar, ter uma nova vida, fazer tudo de novo. Ter outras oportunidades.
Pedro: (Com uma agilidade que me arrepia até hoje, ele soltou o veredicto) Mas Professor, isso é impossível, nós só temos uma vida, por isso temos que fazer dela o mais feliz possível. Temos que fazer dela o melhor possível. (Após falar, foi embora pra sala).


- Um menino de 6 anos de idade ensinou-me a valorizar a minha única vida. –


Eu chorei muito depois disso, muito mesmo. Me senti envergonhado, me senti um inútil. Um menino como ele, que sofre todos esses “crimes emocionais familiares” conseguia enxergar mais esperança na vida do que eu. Foi uma bomba para mim, naquele momento. Ainda por cima tive que encarar meu dia, ministrei aula como um “Zumbi”. Eu estava vazio, apático.
Essa lição que Pedro me deu, corre em mim até hoje. Passei a ser mais grato por tudo o que tenho, passei a enxergar o lado melhor, o lado positivo. Em sinceros 5 minutos minha vida mudou! MUDOU PARA MELHOR! Quanto ao Pedro? Bem, vou deixá-los na curiosidade sobre seu destino, mas prometo que mais pra frente volto aqui para contar. Só um adiantamento, serão ótimas noticias!


“Por isso eu digo: Conversa de Criança não é Brincadeira!”

terça-feira, 16 de setembro de 2008

Conversa de Criança não é Brincadeira!


Ser Professor é mais do que maravilhoso, ser Professor é viver cercado de vida, de esperança, de situações inesperadas, de doçura e de dedicação. Ser professor é ensinar aprendendo!


Trabalho há 8 anos com Educação Infantil, e durante todo esse tempo, minha vida foi uma constante surpresa. Crianças, seres pequenos, imprevisíveis, morais, justos, verdadeiros, VIVOS! Durante todo meu tempo de trabalho como Professor sempre me coloquei, acima de tudo, na posição de Observador. Como é maravilhoso enxergar os hábitos infantis, as conversas, as manias, as preferências, o modo de brincar, de se relacionar. Nós “Adultos” aprendemos muito com tudo isso! Passamos a viver melhor, nos sentimos mais “Seres Humanos”!
A vida da criança é uma surpresa infinita, surpresa que se renova de minuto em minuto. Tem dias que volto deslumbrado para a casa, coisas que meus alunos me dizem, dizem uns para os outros, coisas simples, mas com força esmagadora! Coisas que tocam meu coração.
Seguindo a dica do meu amigo Eliude, criei esse Blog, onde nele contarei as mais diversas situações que vivenciei e vivencio como Professor. Diálogos, situações, análises sobre situações. Prometo que tentarei escrever pelo menos uma situação por semana, e desde já, todos são muito bem vindos! Divirtam-se!
*Todas as histórias que serão contadas aqui, são REAIS. Apenas mudarei os nomes das crianças para manter a privacidade das mesmas.