terça-feira, 24 de novembro de 2009

“Entre Cadernos e Bombas”


Há quanto tempo que não escrevo aqui? Que saudades de dissertar sobre o que me intriga e me apaixona. Fim de ano + escola = trabalho em dobro. Por isso apenas agora, na calmaria impecável da madrugada que encontro tempo para escrever sobre o fantástico mundo das crianças. Para escrever esse texto, que merece todo cuidado e dedicação, pois é um texto que se trata de compreensão. Presenciei esse fato no primeiro ano de trabalho em certa escola. Eu era novato na época, tanto na escola quanto no meio educacional particular. Contava apenas com minha experiência e com informações de alguns livros que lia. E com Deus, claro, sempre com Ele. É uma história engraçada, uma história que tem como tema principal “Pedagogas Malucas”, como sempre diz um astuto amigo meu. Nosso personagem dessa história terá o codinome “Pedro”.


Bom dia segunda feira! Lá estava eu acordando pra mais um dia de trabalho em “minha” nova escola onde tudo era branco e flutuava ao andar, rs. Nesse dia resolvi observar bastante o caminho que eu fazia indo para a escola. Observei muita coisa diferente. Contei os andares dos prédios, o número de casas que possuíam dois andares e qual família possuía cachorro vira-latas. Nenhuma.


Andei pela difícil calçada lotada de flores que roubavam uma caminhada fácil. Dessa vez não me irritei com a calçada. Meu humor estava sólido, pelo menos até a porta da escola. Andei e pensei muito. Pensei em todas aquelas vidas com as quais trabalharia nessa segunda feira. Crianças donas do mundo, mas não de si próprias. Pensei sobre quais seriam médicos e em quais seriam varredores de ruas. Pensei em quais viveriam muito, e pensei também, nas que viveriam pouco. Fiquei feliz e triste. Mas era uma tristeza feliz. Pensei em mim junto a elas. Quais delas se lembrariam de mim, quais delas nem ao menos me falariam “oi” ao cruzarmos na rua após uns 10 anos. A escola é a vida enclausurada entre quatro paredes. Depois de um tempo, tudo se espalha. E isso é lindo! Cada um tomando um rumo diferente, rumos de finais felizes e tristes, mas dessa vez esse último, “triste não feliz”. Sim, a vida é cruel, e nós “adultos” mais ainda. Muito lixo humano influenciando dentro dessas quatro paredes. Muito sério e muito lamentável.


Cheguei ao portão da escola. Adeus humor sólido. Olá humor inconstante, que é maleável de acordo com “o que perde o emprego e o que não perde”. Nessa segunda feira minha humildade estava aguçada. Sentia-me um burro sem experiência, eu queria observar e aprender. As crianças como de costume estavam sentadas com suas respectivas professoras, e logo se encaminharam para suas salas. Observei ao longe a Coordenadora Pedagógica junto ao Pedro, ambos conversavam, parecia sério. Fui ao encontro deles, fiquei na posição de observador, eu queria aprender.


Antes quero lhes apresentar o Pedro:



Pedro era um garoto extremamente infantil. Sua única arma era a imaginação. Que é a maior imaginação que conheci até hoje. Tudo na cabeça de Pedro se tornava realidade, realidade essa que assustava coordenadores, supervisores, diretores e professores. A imaginação fazia Pedro se sentir importante, vivo e dominante. “Contaminava” a todos com ela, de modo saudável e nocivo, como toda criança faz, claro. Mas Pedro nunca foi visto como “toda criança”, mas sim como uma ameaça que precisava ser “curada” antes que se tornasse um problema de proporções sociais. Ou seja, queriam proibir Pedro de imaginar, e isso era como tirar a alma do corpo de Pedro, arrisco até dizer que era como matá-lo emocionalmente. Pedro usava sua imaginação para se sentir importante, para ser visto e não se sentir como “mais um no mundo”. Queriam matar a imaginação de Pedro ao invés de desenvolvê-la. Como se tentassem curar uma quase cegueira com uma cegueira completa. Era melhor tapar os olhos de Pedro para o mundo, antes que ele enxergasse demais e desse asas a essa assustadora imaginação. Eles viam Pedro assim, e eu, via Pedro como a criança mais carente, em termos sociais, que já conheci. Ele precisava aprender a ter amigos, ele precisava ser aceito na sala de aula. Ele precisava de colegas que não o achassem “louco”, mas sim colegas que instruídos por um professor, passassem a amá-lo e a entendê-lo como ele era. Não era necessário fazer dele “mais um corriqueiro aluno”, aliás, o mundo está cheio de mesmices que são sempre propícias ao esnobismo humano. Vamos ao fato:



Nesse dia, Pedro, na época com 7 anos, chegou na escola igual todos os dias, arrastando sua mochila de rodinhas e falando suas fantasias. Mas nesse dia Pedro estava dizendo algo que incomodou a coordenação da escola:



Coordenadora: Olá Pedro! Tudo bem?


Pedro: Tudo bem. Sabe, hoje é o último dia de vida de todo mundo dessa escola.


Coordenadora: (Escandalizada) Mas o que é isso que você está dizendo Pedro?


Pedro: (Sorrindo) É que hoje eu trouxe uma bomba na minha mochila, e vou explodir essa escola inteira. Vou fazer todos entenderem quem estão xingando.


Coordenadora: (Levemente assustada) Mas Pedro, não tem bomba nenhuma na sua bolsa, vamos abri-la para procurar. (Abrindo o zíper maior). Está vendo só, não tem nada aqui dentro, só caderno e estojo.


Pedro: (Amando a situação) Mas a bomba está dentro do meu estojo!


Coordenadora: (Abrindo o estojo) Então vamos procurar dentro do estojo...



Nesse momento Pedro fez um barulho de explosão com a boca. A coitada da coordenadora deu um pulo digno de jogador de basquete. Eu observava isso com meus olhos estarrecidos, não me conformava com a ingenuidade da situação. Pedro não se continha de rir, seu plano fora concluído com extremo êxito. Ele havia explodido a imaginação da coordenadora, da maneira mais cômica possível. Eu nesse momento saí correndo, e quase morri de rir escondido atrás de uma arvorezinha da escola. A coordenadora ficou possessa, arrastou Pedro pra diretoria, e teve uma conversa com ele que deve ter sido “extremamente educacional”. Mas Pedro não “melhorava”. Certo dia ele disse para a professora de Educação Física que era mais forte do que ela. Para provar o contrário a professora de educação física o segurou com toda força, e disse pra ele que ia mostrar que ela era mais forte. Lá ficaram os dois, no meio do pátio, por horas a fio. Lá vinha eu buscando alunos e levando alunos para minha aula. E a situação que ocorria no pátio não mudava. A luta continuava, até que acabou a aula, e a professora teve que soltá-lo. Pedro era sim o mais forte, e o mais persistente também. Nesse dia ele nunca arrastou com tanta confiança e alegria sua mochila de rodinhas pelo pátio da escola. Foi seu primeiro dia como vencedor nessa escola, e eu, estava extremamente orgulhoso dele. Pedro não era uma criança corriqueira, e eu sabia disso.



Aprendi muito com Pedro. E não aprendi quase nada com aquelas coordenadoras e professoras. Pedro me ensinou a não desistir de seus dons em hipótese alguma! Pedro nunca iria parar de imaginar, e ele deixou isso claro a todas as professoras, que de tempos em tempos diziam “Eu desisto do Pedro, ele não tem solução”. Eu, ao contrário, já enxerguei um excelente potencial em Pedro, e prometi ao seu pai e mãe, que se me confiassem a imaginação de seu filho, eu iria desenvolvê-la o máximo possível. Pedro faz aulas de teatro comigo até hoje. Seis anos se passaram, e Pedro cresceu seis anos. Nunca me desrespeitou em hipótese alguma, e também, nunca tentou me explodir com bombas ou até mesmo medir forças. Pedro sabia que eu reconhecia seu potencial, ele não precisava me provar nada, ele estava feliz, e isso bastava. Pedro é extremamente aceito no seu atual meio teatral, pois sua imaginação, agora desenvolvida, se tornou atrativo para todos. Pedro é um ator impecável. Criativo, concentrado e fiel a arte. Cria a todo momento e me ensina a todo instante. Não preciso falar duas vezes, pois pra ele, escutar apenas uma vez já basta. Ele é inteligente, aprende fácil, amadurece fácil. Pai e mãe privilegiados, e nem sabiam disso, pois os elogios tardaram a chegar.


Pessoas como Pedro existem em todos os lugares, poucas bem sucedidas, muitas frustradas pela vida. Pessoas “diferentes” são cortadas da sociedade, pois desrespeitam o padrão corriqueiro. Mudam o que já funciona há séculos. Para eles, é melhor deixar tudo quieto. Mas são crianças como Pedro que mudam e abrilhantam a humanidade. Crianças que um dia se tornaram Leonardo DaVince, Einstein, Beethoven, Van Gogh e Salvador Dali nunca pintaram, desenharam, compuseram ou criaram como os seus corriqueiros colegas de escola. Fizeram diferença e acrescentaram algo a mais! Pedro ainda será uma pessoa de sucesso, tenho certeza, pois ele pensa adiante. Não são raras as aulas em que ele chega recitando poemas de Homero, poemas que eu, estudante de artes, nem conhecia. Ele faz isso com amor e sabedoria, sede infinita pelo conhecimento.


Enfrentar o normal é fácil. Enfrentar o NOVO é se sentir VIVO! Há uma grande diferença nisso tudo.



“Imaginação de criança não é brincadeira”.



segunda-feira, 18 de maio de 2009

“O Devido Lugar de Cada Um...”


“Entrosar”. Todos buscamos isso, não importa o meio ao qual pertencemos. Queremos falar, ser escutado, dar opiniões, receber opiniões, chorar, gritar, rir, abraçar e principalmente SER ACEITO. Precisamos de aceitação, compreensão, e sempre, sentir aquela sensação mágica, que nos prova que estamos sendo necessários, nem que para uma única pessoa. É muito triste quando não encontramos nosso espaço, quando não encontramos um meio sólido para interagir. Em outras palavras, é muito triste quando não somos aceitos no meio em que de alguma forma, precisamos participar, mesmo contra nossa vontade. Um constante lugar onde problemas assim acontecem é a ESCOLA, o “meio obrigatório” mais cruel que pode existir na vida de uma criança.

Nossa primeira seleção social acontece na escola, lá nos dividimos em grupos, onde nesses iremos interagir pelo ano todo, ou ás vezes até mesmo por todo o curso. Sempre temos um amigo preferido, com quem fazemos trabalhos juntos, deveres escolares e brincamos. Viramos “unha e carne” com aquela pessoa mágica que conhecemos na escola. O problema é quando não conhecemos ninguém, quando não conseguimos interagir no meio escolar, quando ficamos completamente sós no mundo “sala de aula”. Com isso passamos a odiar a escola, os colegas, os professores e a tudo. É como se nosso lugar no mundo não existisse, como se ninguém estivesse olhando pra gente, não nos sentimos aceitos.

Eu por exemplo confesso que demorei muito para descobrir qual era o meu verdadeiro lugar, sempre contei com os amigos errados por um bom tempo. Eu sempre sentia que de alguma forma estava implorando para ser amigo de alguém, implorando para ir à casa de alguém, e sempre torcendo para que o telefone de casa tocasse e fosse algum colega me chamando para brincar. Isso raramente acontecia. Com isso minha auto estima foi ficando cada vez mais baixa, tão baixa ao ponto de eu ter vergonha de mim mesmo. Passei a me achar a pessoa mais feia e esquisita do mundo. Eu tinha vergonha de mim mesmo. Lembro-me que ás vezes andando na calçada da rua eu avistava colegas da escola vindo em minha direção, eu trocava de calçada, pois não conseguia encará-los, tinha vergonha. Vergonha da minha roupa, do meu cabelo, dos meus óculos, da minha pele, enfim, eu vivia em constante fuga. Foi uma fase difícil, que acabou quando entrei nas aulas de Teatro, ou seja, acabou quando encontrei o meu lugar.

Jamais aceitei exclusão em meio aos meus alunos. Sempre fiz o possível para sanar os problemas sociais da sala de aula. Sempre que posso coloco meus alunos em conflito com suas preferências. Faço todos interagirem com todos, e não aceito discriminação. Mas “exclusão” é algo tão constante dentro do ambiente escolar que passei a acreditar que talvez “a seleção” fosse uma problemática constante da vida de qualquer aluno. Parecia que alguns alunos tinham vocação para serem “motivos de chacota”, rs, como eu fui. Todos sempre implicavam com o mesmo aluno, aquele estereótipo de sempre que se sentava na frente ou no fundo da sala, nunca no meio.

O que me fez “desenterrar” essas lembranças foi um acontecimento que venho observando em um grupo de alunos meu, e que hoje, teve um ápice. Para contar essa história, vou chamar meu aluno de Vitor:

Vitor tem 11 anos de idade, e é uma das crianças mais puras que já conheci. Uma pureza misturada com ingenuidade que fazem dele uma criança extremamente cativante para qualquer adulto, mas apenas para os adultos. Vitor conta piadas sem “pé nem cabeça”, faz comentários limpos e é extremamente inteligente e observador. É uma criança fantástica, e está lá, sempre com seu sorriso maravilhoso no rosto. Ele nunca falta às aulas, sempre decora seu texto, muito organizado com tudo o que faz. Veste-se de maneira simples e faz o possível para agradar a todos os colegas. Sempre em vão.

Na hora de fazer roda, ninguém quer dar a mão para o Vitor, não querem sentar ao seu lado, não querem fazer trabalho com ele. Sempre que podem fazem comentários humilhantes sobre as maneiras de Vitor agir, humilhações essas que Vitor recebe de cabeça baixa com um meio sorriso no rosto, sorriso esse que são para mim lágrimas presas em uma enorme tristeza. Mas ele sempre está lá, disposto a perdoar a todos, sempre disposto a ser amigo de todos. Quando Vitor se atrasa para chegar à aula (raramente), comentários do tipo “Ah tomara que ele não venha” são normais na sala de aula. Quando ele aponta na porta da sala de aula, caras de desprezo e irritação são constantes no rosto de todos os alunos, e lá está Vitor, entrando na sala com a cabeça baixa e seu meio sorriso no rosto, pensando cuidadosamente nas palavras que deve usar para conversar com seus “colegas”.

Sempre observei tudo isso, e sempre achei também, que Vitor estava alheio a tudo isso. Devido a sua pureza e ingenuidade plena, pensava eu que Vitor não se ofendia e nem mesmo percebia a rejeição que seus colegas tinham por ele. Eu nunca estive tão errado em toda minha vida.

Hoje Vitor chegou visivelmente alterado na escola, ele estava um pouco impaciente e agitado. Mas estava feliz e alegre como sempre, então não dei muita atenção para isso. Continuei minha aula normalmente. No meio da aula percebi uma alteração no ambiente, e quando me virei pra trás vi Vitor pulando a murros em cima de seu colega de sala. Corri e separei a briga. Levei Vitor para uma sala ao lado e me sentei para conversar com ele:


Eu: Vitor, porque você bateu naquele menino?

Vitor: (chorando e aos nervos) Não foi nada, bobeira...

Eu: Conta pra mim Vitor, não pode ter sido bobeira. Olha como você está nervoso. O que foi que ele disse a você?

Vitor: É que... Não foi nada, bobeira...


Depois de MUITO insistir, consegui a resposta que queria.


Eu: Vitor, o professor é seu amigo, quero te ajudar, me conta o que aconteceu!

Vitor: (aumentando o choro ao contar) É que ele falou mal da minha mãe, e disse que nem ela deve gostar de mim. (dando um berro) EU ODEIO SER EU!!!


Esse grito de Vitor simplesmente me paralisou. Ele odiava ser ele mesmo, e eu sabia exatamente do que ele estava falando. E percebi também como eu tinha sido um “Mocréio Sem Vocação” de não ter encarado esse fato de frente logo de início.

Vitor me abraçou e chorou muito, depois que ele se acalmou tivemos uma longa conversa. Tive muito cuidado para não usar frases prontas e sem valor como “Não ligue para o que ele fala.”, “Ele tem ciúmes de você.”. Eu sempre fui muito realista com todos meus alunos. SEMPRE. Expliquei a ele a dificuldade que eu mesmo tinha de me entrosar, e rolou até uma conversa engraçada:


Eu: Sabia Vitor que às vezes eu até mudava de calçada com vergonha de passar perto dos meus colegas?

Vitor: Nossa Professor, o senhor consegue ser pior do que eu hein?


Fiquei até vermelho com esse comentário dele, e nós dois rimos muito. A conversa de certa forma foi confortante, pois Vitor retomou sua alegria depois dela, e passou a respirar com mais calma. Foi embora pra casa de alma lavada, pois ele tinha dado o seu grito. Ele gritou “EU ODEIO SER EU!!!” bem alto para eu escutar. Agora eu sabia disso, e Vitor sabia que eu sabia, e isso o fez entender que não vai precisar mais caminhar sozinho, ele sabe que a partir de agora tem ajuda, ganhou um amigo, finalmente. Um amigo com o dobro de sua idade, mas um amigo que o aceita, do jeito que ele é. Hoje ele vai dormir sabendo que é aceito, pelo menos por uma pessoa, que já é o suficiente para ele querer voltar à escola.

Mesmo enquanto adultos excluímos. Como eu já disse, acredito que essa é uma problemática constante da vida. Escolhemos o meio ao qual vamos interagir, escolhemos quem merece escutar nossas idéias. Cada um possui seu lugar, Deus reservou um pedacinho de mundo para cada um, como me reservou para ser o mundo de Vitor na escola, mesmo que por apenas um ano. Meu entendimento sobre seus problemas não são em vão, arrisco a dizer que passei tudo o que passei na minha infância para ter esse pequeno entendimento sobre Vitor, para ajudá-lo, as proporções em quais Deus age estão além de nosso entendimento. O trabalho começa agora.



Vida de Criança não é Brincadeira!

OBS: Foto retirada do livro "Nós" de Eva Furnari, que trata o tema da "exclusão" de forma brilhante.

sábado, 21 de fevereiro de 2009

Sonhos de Televisão

Quem enquanto criança, nunca teve um sonho de televisão? Aparecer em novelas, em algum programa infantil, participar do “Passa ou Repassa”, ou até mesmo viajar como a Glória Maria do “Fantástico”. Todos já tivemos um sonho de televisão, seja ele de qualquer tamanho.

Eu já tive um sonho de televisão, e por mais humilde que ele fosse, foi catastrófico o resultado, rs. Acho, hoje em dia, esse fato que aconteceu comigo muito engraçado. Acho engraçado pois a idéia que passou pela minha cabeça foi completamente absurda, mas na época em que aconteceu o fato foi barra agüentar. Sempre me surpreendo com a facilidade que tenho de relembrar fatos da minha infância. Lembro-me desse como se tivesse ocorrido ontem! Bom, vamos ao fato:

Eu era criança, não vou especificar a idade para na agredir os envolvidos da época, por mais que mereçam, rs. Minha vizinhança é muito unida, e as mulheres daqui vivem fazendo coisas juntas. Na época o hábito era assistir o jornal local da cidade pela televisão. Todas se reuniam na casa da vizinha e assistiam o jornal da cidade na TV. Eu sempre ia junto com minha mãe, adorava assistir esse jornal. Ver as pessoas que eu conhecia na televisão era simplesmente o máximo! Adorava encontrar com elas na rua e dizer que as havia visto na TV. As matérias desse jornal eram muito legais, e ao mesmo tempo muito engraçadas. Lembro-me de uma matéria específica, que achei muito engraçada. Uma vez uma lanchonete aqui da cidade forneceu para os clientes uma maionese caseira que estava estragada, “salmonela” era o nome do problema se não me engano. O resultado foi que todos foram parar no hospital por intoxicação e tiveram que ficar em um quarto lá, juntos e internados. O jornal fez uma matéria sobre o tema e filmou os “internados”. Eu amei assistir essa matéria, todos sorrindo e fazendo “jóia” pra câmera enquanto estavam deitados em suas camas de hospital. Quando vi essa matéria um único pensamento passou pela minha cabeça:

Eu: “Porque não fui comer lanche nessa lanchonete?”

Foi nesse momento que me dei conta do quanto eu queria aparecer no jornal da cidade. Queria aparecer na TV, para todas as vizinhas me assistirem! A partir disso eu prometi a mim mesmo que ia fazer o possível para aparecer na TV!
Um dia na escola, a professora disse que haveria um concurso de redações, e que o vencedor ganharia uma bicicleta de marchas e iria ler a redação ao vivo pela TV no jornal da cidade. Era a oportunidade que eu precisava! Eu me enchi de alegria. Acabando a aula fui para a casa e comecei a redação. Só Deus sabe o quanto me dediquei para escrever aquele texto, passei a tarde toda escrevendo. Tentei usar o máximo possível de palavras difíceis. Escrevi com o dicionário do lado, encontrando palavras que pudessem parecer “inteligentes” para a professora. O tema da redação era “A Preservação da Natureza”. Não me lembro de como ficou o texto, mas me lembro que ficou bem legal. Chegando à escola no dia seguinte, entreguei meu texto cheio de esperanças. O resultado sairia na semana seguinte. Foi uma semana de insônia e de orações. Lembro-me que eu dizia assim para Deus:

Eu: Meu Deus, eu sei que várias crianças da minha escola merecem aparecer na televisão, mas queria muito que o Senhor me sorteasse dessa vez.

Impossível esquecer essa frase, foram inúmeras vezes que pedi isso para Deus, como pedi!

Finalmente chegou o dia do resultado do concurso! Eu fui correndo pra escola, com medo de acontecer algo que me impedisse. Tudo na rua parecia um obstáculo, eu fugia de tudo e de todos, sempre em direção da escola. Chegando à escola entrei na sala, e logo entrou a diretora para falar o resultado. A diretora disse assim:

Diretora: Olá crianças, boa tarde! Hoje vamos saber quem é o vencedor do concurso de redações. Mas antes eu preciso conversar com um coleguinha de vocês em particular. Djalma, vamos comigo até a diretoria.

Meu coração quase saiu pela boca, eu pensei:

Eu: “Claro, ela vai me levar à diretoria e dirá que sou o vencedor. Irá me dizer longe dos meus colegas para eles não ficarem tristes!”

Chegando à diretoria, sentei-me a mesa da diretora, e ela com um olhar muito severo me perguntou:

Diretora: Djalma, vou perguntar somente uma vez, quem escreveu esse texto pra você?
Eu: (Engolindo uma saliva que mais parecia uma pedra perguntei) O que?
Diretora: Quem foi que escreveu esse texto? Vamos responda menino! Quem foi que escreveu?

Logo me lembrei de todas aquelas palavras difíceis que passei a tarde toda procurando no dicionário. O mundo tinha desabado pra mim, eu queria chorar de ódio! Na época eu era um menino completamente tímido, muito reprimido. Nem tive coragem de discutir com a diretora. Eu disse a ela que eu havia escrito, mas ela continuou perguntando quem era o verdadeiro autor. Eu acabei caindo em um choro forte, e ela entendeu esse choro como resposta do meu suposto “plágio”. Como sofri! Que dor foi saber que eu não apareceria na televisão. Maldita hora que fui escrever aquelas palavras! rs.
Quem acabou vencendo o concurso foi uma menina da outra sala. Como foi triste assistir ela na TV acompanhado de todas as vizinhas, como sofri. As vizinhas soltavam comentários do tipo:

Vizinhas: “Vejam que menina talentosa!”. “Olhem que postura para ler!”. “A mãe dela deve estar orgulhosa nesse momento!”.

QUE ÓDIO!

Eu tinha desanimado de vez. Minha única oportunidade de aparecer na TV tinha ido por “escola abaixo”. Continuei então, apenas esperando mais uma oportunidade.
Passaram-se 2 meses do incidente, rs. Eu acordei cedo e fui nadar em um clube que fica próximo a minha casa. Quando chego ao clube quase morro de alegria! Estavam gravando uma entrevista com o prefeito! Uma entrevista que apareceria na televisão! Eu mal podia acreditar! Era a chance das minhas vizinhas me assistirem!
Cabeça de criança é inacreditável. Planos mirabolantes! Idéias impossíveis e situações inesperadas. Tudo com um retoque impecável de muita inocência. Inocência essa que os adultos tem uma dificuldade incrível de enxergar e entender. A idéia que tive nesse dia foi apenas uma, uma idéia inocente e infeliz:

Eu: (Tendo a idéia) “Se eu passar correndo entre a câmera e o prefeito, eles nem vão perceber, daí eu vou aparecer na televisão, e as vizinhas irão me ver. Como eu sou rápido na corrida, nem vão perceber que passei entre eles!”

Parecia infalível! Parecia apenas. Lá fui eu, corri o mais rápido que pude e passei entre eles. Talvez dessa vez minha velocidade tenha falhado, pois foi extremamente perceptível minha passagem entre eles. O “camera man” ficou irritadíssimo, e berrou pra mim:

Camera Man: Você é idiota moleque, estragando minha filmagem! O que deu em você?
Eu: (Extremamente mal e de cabeça baixa) Eu só queria aparecer um pouco na TV...
Camera Man: “Aparecer na TV” o caramba moleque. Quem vai querer assistir um moleque feio e sem educação como você na televisão?

E enquanto ele gritava, eu escutava. O prefeito só ficava olhando, não dizia nada, e olha que minha mãe tinha votado nele na eleição, cretino! Logo após a lascada do “camera man”, eu sai dali e sentei em baixo de uma árvore me sentindo a pessoa mais feia do mundo. Nem chorar eu conseguia, eu estava me sentindo muito mal. “Que burrice a minha!” eu pensava. Logo após terminar a entrevista com o prefeito, avistei o moço filmando as crianças pulando na piscina. Porque eu não esperei mais um pouco meu Deus? rs. E lógico, no outro dia lá estava eu e as vizinhas assistindo todas aquelas crianças felizes pulando na piscina. Foi trágico, dolorido. E lá estavam os famosos comentários:

Vizinhas: “Olha como aquele menino nada bem!”. “Ah nadar é tão gostoso né gente?”.

Péssimo.

Depois disso, eu via uma câmera e passava longe, tomei nojo, raiva, e quando anunciaram o fim do jornal da cidade na TV, eu agradeci do fundo do meu coração a Deus por isso! rs.

A mente criativa de uma criança é algo impensável para um adulto. São milhares de emoções conflitantes dentro delas, emoções que são expelidas 24hs por dia, sem pausa, e das milhares de formas possíveis. Hoje entendo o porquê que aparecer na TV era tão necessário para mim. Eu queria ser uma pessoa importante, uma pessoa elogiada e reconhecida. Infelizmente, enquanto criança, eu havia escolhido o caminho mais fútil que existia. A minha tão desejada importância eu acabei encontrando aos meus 10 anos de idade no curso de teatro de minha cidade, onde em minha primeira peça, na qual eu pronunciava apenas 6 falas, fui aplaudido por mérito. Eu sei que poucos daqueles aplausos eram direcionados a mim, ator quase figurante, mas os poucos que me atingiram já eram o suficiente para eu me sentir feliz, para eu me sentir importante!
Crianças são a criatividade em forma humana! Precisam ser vistas, elogiadas, aplaudidas de pé! Elas são merecedoras, todas, eu garanto. Deus confiou sua maior obra prima para nós adultos cuidarmos, mas infelizmente, humilhações e violência são artifícios constantes na relação adulto/criança.
Cuidar bem para ser cuidado um dia! E nunca se esqueçam, como dizia minha professora de teatro: “Nossos alunos de hoje são nossos médicos de amanhã, cuide bem deles para depois eles cuidarem bem de você”.

Por isso eu digo, MENTE DE CRIANÇA NÃO É BRINCADEIRA!