terça-feira, 30 de setembro de 2008

“Mocréias sem Vocação”


Analisar a postura de outro professor é um tanto complicado, pois de certa forma, impessoalmente trata-se de um colega de trabalho. Por isso escrevo esse acontecimento com tranqüilidade, pois quando ele aconteceu eu me encontrava na posição de aluno.


O titulo da postagem pode parecer um pouco ofensivo, mas não é. Eu simplesmente não consegui colocar outro.
Tenho uma amiga, com a qual posso conversar por horas, dias, semanas, e mesmo assim não me canso. Possuímos uma grande ligação mental, e por isso combinamos de várias maneiras, em dezenas de opiniões e idéias. “Mocréias Sem Vocação” seria o titulo do Trabalho de Conclusão de curso dessa minha amiga na faculdade, onde nele seriam feitas análises de situações que provam a existência de vários professores que não possuem um pingo de talento e vocação. Mas o medo de que houvesse uma Mocréia sem Vocação na banca de avaliação do trabalho, fez com que essa minha amiga desistisse dessa Grande Idéia de projeto de pesquisa. Uma pena, uma grande pena.
Devido a esse motivo, não pude escolher um outro titulo para o fato que irei contar. Esse título é simplesmente delicioso, rs! E descreve muito bem a professora que me causou um trauma que persiste até hoje. Podem rir a vontade dessa história, eu deixo, rs. Ela é de um absurdo tão grande que se torna até engraçada.
Não vou especificar a idade que eu tinha quando passei por essa situação, mas vou dizer que foi entre meus 5 e 8 anos de idade. Muitos me perguntam como consigo lembrar dela com tantos detalhes, mas foi uma situação tão complicada naquele momento, tão humilhante, que me lembro até da roupa que a professora estava, a sala de aula em que isso ocorreu, a posição da professora na sala de aula. Lembro-me de absolutamente tudo. Vamos ao fato então:

Era dia 01 de Junho. Lembro-me do dia pois é meu aniversário. Estávamos sentados todos na sala de aula, e incrivelmente me lembro que era uma aula de Matemática, pois tenho uma vaga imagem de números desenhados no quadro. Nesse dia não era somente o meu aniversário, um menino da sala de aula chamado Diego, também estava aniversariando. Esse Diego era muito querido pela professora, e isso era extremamente perceptível por todos nós alunos. Ela sempre dava preferência para ele, em tudo. Ele era a referência de bom aluno para todos nós “péssimos” alunos da sala de aula. Até os erros do Diego eram acertos. Todos queriam ser como Diego, mas não para SER o Diego, mas sim para RECEBER a atenção da professora que só ele recebia.
A professora, claro, não esqueceu o aniversário do Diego. Ela já logo entrou na sala de aula com uma cara de “Parabéns pra Você” e abraçou o Diego, que estava super feliz. Em voz alta a professora disse para a sala toda:


Professora: (Com uma alegria incontrolável) Crianças, crianças! Silêncio! (A sala se aquietou). Hoje é aniversário do Diego, vamos cantar “parabéns” para ele!


A sala toda cantou “Parabéns pra Você” para o Diego, com grande alegria. Todos amavam Diego, ou melhor, amavam o que ele tinha de diferente para ser tão elogiado pela professora.


POXA! ERA O MEU ANIVERSÁRIO TAMBÉM!


Mas é claro que a professora não se lembrou. Claro, como ela poderia se lembrar do meu aniversario se eu não era o Diego? Seria esforço demais pra ela, rs!
Minha coleguinha que sentava na carteira da frente, logo percebeu que eu estava muito triste com a situação. Essa menina se chamava Renata e logo ela me perguntou:



Renata: Djalma, porque você está triste?
Eu: (Muito triste) Você não conta pra ninguém Renata?
Renata: Claro que não, eu juro.
Eu: É que hoje é meu aniversario também, e a professora não cantou parabéns pra mim.




Talvez Renata estivesse com os dedos cruzados quando fez a promessa de não contar a ninguém, pois segundos depois lá estava ela contando para a professora que eu estava triste porque era meu aniversario também e não cantaram parabéns pra mim. A professora, com a cara mais inconformada possível, se levantou da cadeira e disse assim para todos:



Professora: Geeeeeeente, o Djalma ficou com dor de cotovelo (e enquanto isso ela esfregava o próprio cotovelo) porque só cantamos parabéns pro Diego. Vamos cantar parabéns pra ele também?




E com a voz mais mole do mundo ela começou um desanimante “Parabéns pra Você”, que lógico, foi imitado pela sala toda. Lembro-me que ela batia palmas com uma moleza incrível, enquanto entortava o olho pra cima em uma expressão de “Que saco esse menino!”.
Eu? Escutei esse “Parabéns pra Você” de cabeça baixa em minha carteira, forçando para não chorar. Senti-me muito humilhado, envergonhado. Fui motivo de “chacota” para os colegas o dia todo. A professora deixou bem claro para todos alunos da sala de aula que eu estava com “dor de cotovelo”.
Depois desse “Lindo Parabéns pra Você”, quem disse que eu conseguia receber próximos em minhas festas de aniversário? Minhas três festas seguidas de aniversario foram sem “Parabéns pra Você”, pois quando começavam cantar eu saia correndo e me trancava no quarto, e a coitada da minha Mãe ficava sem entender absolutamente nada, pois eu não tinha contado o fato para ela.

Até hoje é difícil receber a música “Parabéns pra Você” em minhas festas de aniversário. Confesso que na minha festa de 18 anos precisei segurar a mão de uma amiga enquanto todos esperavam para que eu “Apagasse as Velinhas”. Sinto muita vergonha, sinto como se não merecesse os “Parabéns”.
Acredito FIELMENTE na teoria de “Que aqui se faz, aqui se paga”. Deus fez o Planeta redondo para no ensinar que as coisas sempre param no mesmo lugar, mais cedo ou mais tarde. Digo isso, pois uns anos mais tarde entra uma nova aluna na escola que eu trabalhava. Essa aluna era filha da Professora que me humilhou. E agora o MELHOR de tudo, vocês não vão acreditar! Adivinhem em que dia a filha dessa Professora nasceu? Sim, no dia 01 de Junho, no dia do meu aniversário! Quando eu descobri isso destampei a rir descontroladamente. Ri muito mesmo! Imagina o terror dessa professora quando soubesse que eu era professor da menina. Ela ia morrer de medo que eu massacrasse a filha dela com um estrondoso “Parabéns pra Você”. Que nada, rs. Acredito que são nesses momentos que Deus nos coloca a prova. Sempre fiz questão de que em todo dia 01 de Junho cantassem “Parabéns pra Você” para essa menina, como para todos os outros alunos da sala em seus respectivos aniversários. Eu nunca cometeria o mesmo erro que minha Professora cometeu, nunca chegaria ao nível. Como já escreveu o mestre Roberto Bolaños (Chaves) “A vingança Nunca é Plena, Mata a Alma e a Envenena”, rs! Como também sempre me disse minha professora de Teatro: “Nossos alunos de hoje são nossos médicos de amanhã Djalma, cuide bem deles para depois eles cuidarem bem de você”, rs!
Ser professor não e fácil. É uma profissão delicada. Envolve dedicação, postura, destreza, amor, técnica, profissionalismo e VOCAÇÃO! Não é para qualquer um. Crianças são seres sensíveis, com alma pura e delicada. Não podemos pisoteá-las, esse é um pecado imperdoável. As crianças nunca deixam escapar nada, elas estão sempre atentas, “antenadas” no mundo que as rodeia, nesse mundo maluco e interessante. Se você parar pra ver, irá perceber que elas sabem mais sobre você do que você sobre elas. As crianças são decisivas, ou elas gostam ou elas não gostam. As crianças são uma lição de vida, que deve ser assistida e cuidada de perto. Para elas crescerem bem, fazerem o bem, SEMPRE!

quinta-feira, 18 de setembro de 2008

Uma História de Renovação!


Existem alunos que nós Professores nunca esquecemos, seja ele arteiro, esperto, gentil. Existem alunos que simplesmente marcam nossa vida. Não é uma questão de preferência, é apenas uma questão de ligação, e empatia. Aliás, nós Professores somos humanos também, rs!


Acredito que essa será uma boa história de abertura, uma história que foi um tremendo “lava cara” para mim. Vou chamar esse menino de Pedro. Na época ele tinha 6 anos de idade, era aluno do antigo “Pré-3”, que hoje é o 1º Ano do Ensino Fundamental.


Pedro era um menino muito carente, principalmente de pai. O pai era um homem “grosso” que não tinha a mínima paciência com Pedro. Pedro sempre chegava atrasado na escola, e também era o ultimo a ir embora. Me lembro de um dia, que a Diretora da Escola, pediu ao pai de Pedro que viesse buscá-lo no horário correto da Saída, pois Pedro sempre era o ultimo a ir embora, ficava lá no banco, sentado, horas a fio com a atenção fixa no barulho dos carros que viravam a esquina da rua da Escola. Nesse dia, o pai de Pedro disse assim para a Diretora, com essas exatas palavras que não dá para esquecer:


Pai do Pedro: Além de pagar essa escola, você ainda quer exigir que eu busque ele na hora certa? Por mim eu deixava esse menino aqui na segunda e buscava ele só na sexta!


E lá estava Pedro, sentado no banco, escutando essas “doces” palavras que eram “recitadas” por seu pai, pelo homem que tinha lhe dado a vida, pelo homem que ele mais amava no mundo.
Esses fatos auto-explicavam a carência de Pedro.

Toda vez que ele chegava na escola, a primeira coisa que Pedro fazia era me procurar, para me dar um abraço e um beijo, e lógico, para ao mesmo tempo, recebê-los. Acho que Pedro me enxergava em sua vida como uma figura Paterna. Eu sempre tentava impedir isso, pois eu era apenas o Professor, e não o pai. Mas era difícil. Pedro era o “filho sonho” de qualquer pai, o único que não enxergava isso era o pai do Pedro, aquele babaca (me desculpem rs)! Um dia perguntei para ele:


Eu: E aí Pedro? Como foi seu dia hoje?
Pedro: Hoje Professor Djalma, aconteceu uma coisa “muito alegria” lá em casa!
Eu: (Com a maior felicidade) Mas isso é ótimo! O que foi que aconteceu de alegre na sua casa?
Pedro: (Com uma voz amarga) Eu derrubei sem querer o prato do almoço hoje, daí meu pai ficou muito bravo. Ele pegou o meu fantoche “Alegria” e com ele bateu em mim.


Eu simplesmente fiquei mudo, não sabia o que falar. Mas arrisquei:


Eu: E você esta bem Pedro? Seu pai te machucou muito?
Pedro: Estou bem sim, só te contei porque você perguntou mesmo. Mas sabe Professor Djalma, vou te contar um segredo. Eu joguei o “Alegria” no lixo! Não gosto mais dele.


E Pedro foi para a sala. Eu fiquei ali, parado, boquiaberto, observando aquele menino indo para a sala, o caminhar dele era triste, tudo nele era triste.


Enfim! Agora o fato marcante que vivi com Pedro.


Tem dias que estamos um tremendo “Stress”. Não queremos fazer nada, MUITO MENOS ir trabalhar. Mas fazer o que? Professor é o que mais tem por ai e não podemos dar brecha rs!

Acordei muito mal, tinham acontecido umas coisas péssimas na minha vida, e eu estava muito mal mesmo. Segui a rotina, arrumei minhas coisas e fui trabalhar. Cheguei na escola e sentei na mesa para organizar uns papéis antes de ir pegar a sala. Como de costume, lá veio o Pedro, atrasado como sempre, com a “lancheira” pendurada de um lado e segurando as pesadas apostilas. Nem mochila o menino tinha, era um descaso total!
Pedro veio e me deu um abraço e um beijo. Ele imediatamente percebeu que eu não estava bem, ele possuía uma sensibilidade incrível! Com a maior cara de dúvida do mundo ele me perguntou:


Pedro: Professor Djalma, está tudo bem com você?
Eu: (Pensei rápido, mas desabafei) Sabe Pedro, existem dias que eu sinto vontade de nascer de novo.
Pedro: (Sem entender nada) Nascer de novo?
Eu: (Um pouco mais a vontade) É, nascer de novo, recomeçar, ter uma nova vida, fazer tudo de novo. Ter outras oportunidades.
Pedro: (Com uma agilidade que me arrepia até hoje, ele soltou o veredicto) Mas Professor, isso é impossível, nós só temos uma vida, por isso temos que fazer dela o mais feliz possível. Temos que fazer dela o melhor possível. (Após falar, foi embora pra sala).


- Um menino de 6 anos de idade ensinou-me a valorizar a minha única vida. –


Eu chorei muito depois disso, muito mesmo. Me senti envergonhado, me senti um inútil. Um menino como ele, que sofre todos esses “crimes emocionais familiares” conseguia enxergar mais esperança na vida do que eu. Foi uma bomba para mim, naquele momento. Ainda por cima tive que encarar meu dia, ministrei aula como um “Zumbi”. Eu estava vazio, apático.
Essa lição que Pedro me deu, corre em mim até hoje. Passei a ser mais grato por tudo o que tenho, passei a enxergar o lado melhor, o lado positivo. Em sinceros 5 minutos minha vida mudou! MUDOU PARA MELHOR! Quanto ao Pedro? Bem, vou deixá-los na curiosidade sobre seu destino, mas prometo que mais pra frente volto aqui para contar. Só um adiantamento, serão ótimas noticias!


“Por isso eu digo: Conversa de Criança não é Brincadeira!”

terça-feira, 16 de setembro de 2008

Conversa de Criança não é Brincadeira!


Ser Professor é mais do que maravilhoso, ser Professor é viver cercado de vida, de esperança, de situações inesperadas, de doçura e de dedicação. Ser professor é ensinar aprendendo!


Trabalho há 8 anos com Educação Infantil, e durante todo esse tempo, minha vida foi uma constante surpresa. Crianças, seres pequenos, imprevisíveis, morais, justos, verdadeiros, VIVOS! Durante todo meu tempo de trabalho como Professor sempre me coloquei, acima de tudo, na posição de Observador. Como é maravilhoso enxergar os hábitos infantis, as conversas, as manias, as preferências, o modo de brincar, de se relacionar. Nós “Adultos” aprendemos muito com tudo isso! Passamos a viver melhor, nos sentimos mais “Seres Humanos”!
A vida da criança é uma surpresa infinita, surpresa que se renova de minuto em minuto. Tem dias que volto deslumbrado para a casa, coisas que meus alunos me dizem, dizem uns para os outros, coisas simples, mas com força esmagadora! Coisas que tocam meu coração.
Seguindo a dica do meu amigo Eliude, criei esse Blog, onde nele contarei as mais diversas situações que vivenciei e vivencio como Professor. Diálogos, situações, análises sobre situações. Prometo que tentarei escrever pelo menos uma situação por semana, e desde já, todos são muito bem vindos! Divirtam-se!
*Todas as histórias que serão contadas aqui, são REAIS. Apenas mudarei os nomes das crianças para manter a privacidade das mesmas.