Quem enquanto criança, nunca teve um sonho de televisão? Aparecer em novelas, em algum programa infantil, participar do “Passa ou Repassa”, ou até mesmo viajar como a Glória Maria do “Fantástico”. Todos já tivemos um sonho de televisão, seja ele de qualquer tamanho.Eu já tive um sonho de televisão, e por mais humilde que ele fosse, foi catastrófico o resultado, rs. Acho, hoje em dia, esse fato que aconteceu comigo muito engraçado. Acho engraçado pois a idéia que passou pela minha cabeça foi completamente absurda, mas na época em que aconteceu o fato foi barra agüentar. Sempre me surpreendo com a facilidade que tenho de relembrar fatos da minha infância. Lembro-me desse como se tivesse ocorrido ontem! Bom, vamos ao fato:
Eu era criança, não vou especificar a idade para na agredir os envolvidos da época, por mais que mereçam, rs. Minha vizinhança é muito unida, e as mulheres daqui vivem fazendo coisas juntas. Na época o hábito era assistir o jornal local da cidade pela televisão. Todas se reuniam na casa da vizinha e assistiam o jornal da cidade na TV. Eu sempre ia junto com minha mãe, adorava assistir esse jornal. Ver as pessoas que eu conhecia na televisão era simplesmente o máximo! Adorava encontrar com elas na rua e dizer que as havia visto na TV. As matérias desse jornal eram muito legais, e ao mesmo tempo muito engraçadas. Lembro-me de uma matéria específica, que achei muito engraçada. Uma vez uma lanchonete aqui da cidade forneceu para os clientes uma maionese caseira que estava estragada, “salmonela” era o nome do problema se não me engano. O resultado foi que todos foram parar no hospital por intoxicação e tiveram que ficar em um quarto lá, juntos e internados. O jornal fez uma matéria sobre o tema e filmou os “internados”. Eu amei assistir essa matéria, todos sorrindo e fazendo “jóia” pra câmera enquanto estavam deitados em suas camas de hospital. Quando vi essa matéria um único pensamento passou pela minha cabeça:
Eu: “Porque não fui comer lanche nessa lanchonete?”
Foi nesse momento que me dei conta do quanto eu queria aparecer no jornal da cidade. Queria aparecer na TV, para todas as vizinhas me assistirem! A partir disso eu prometi a mim mesmo que ia fazer o possível para aparecer na TV!
Um dia na escola, a professora disse que haveria um concurso de redações, e que o vencedor ganharia uma bicicleta de marchas e iria ler a redação ao vivo pela TV no jornal da cidade. Era a oportunidade que eu precisava! Eu me enchi de alegria. Acabando a aula fui para a casa e comecei a redação. Só Deus sabe o quanto me dediquei para escrever aquele texto, passei a tarde toda escrevendo. Tentei usar o máximo possível de palavras difíceis. Escrevi com o dicionário do lado, encontrando palavras que pudessem parecer “inteligentes” para a professora. O tema da redação era “A Preservação da Natureza”. Não me lembro de como ficou o texto, mas me lembro que ficou bem legal. Chegando à escola no dia seguinte, entreguei meu texto cheio de esperanças. O resultado sairia na semana seguinte. Foi uma semana de insônia e de orações. Lembro-me que eu dizia assim para Deus:
Eu: Meu Deus, eu sei que várias crianças da minha escola merecem aparecer na televisão, mas queria muito que o Senhor me sorteasse dessa vez.
Impossível esquecer essa frase, foram inúmeras vezes que pedi isso para Deus, como pedi!
Finalmente chegou o dia do resultado do concurso! Eu fui correndo pra escola, com medo de acontecer algo que me impedisse. Tudo na rua parecia um obstáculo, eu fugia de tudo e de todos, sempre em direção da escola. Chegando à escola entrei na sala, e logo entrou a diretora para falar o resultado. A diretora disse assim:
Diretora: Olá crianças, boa tarde! Hoje vamos saber quem é o vencedor do concurso de redações. Mas antes eu preciso conversar com um coleguinha de vocês em particular. Djalma, vamos comigo até a diretoria.
Meu coração quase saiu pela boca, eu pensei:
Eu: “Claro, ela vai me levar à diretoria e dirá que sou o vencedor. Irá me dizer longe dos meus colegas para eles não ficarem tristes!”
Chegando à diretoria, sentei-me a mesa da diretora, e ela com um olhar muito severo me perguntou:
Diretora: Djalma, vou perguntar somente uma vez, quem escreveu esse texto pra você?
Eu: (Engolindo uma saliva que mais parecia uma pedra perguntei) O que?
Diretora: Quem foi que escreveu esse texto? Vamos responda menino! Quem foi que escreveu?
Logo me lembrei de todas aquelas palavras difíceis que passei a tarde toda procurando no dicionário. O mundo tinha desabado pra mim, eu queria chorar de ódio! Na época eu era um menino completamente tímido, muito reprimido. Nem tive coragem de discutir com a diretora. Eu disse a ela que eu havia escrito, mas ela continuou perguntando quem era o verdadeiro autor. Eu acabei caindo em um choro forte, e ela entendeu esse choro como resposta do meu suposto “plágio”. Como sofri! Que dor foi saber que eu não apareceria na televisão. Maldita hora que fui escrever aquelas palavras! rs.
Quem acabou vencendo o concurso foi uma menina da outra sala. Como foi triste assistir ela na TV acompanhado de todas as vizinhas, como sofri. As vizinhas soltavam comentários do tipo:
Vizinhas: “Vejam que menina talentosa!”. “Olhem que postura para ler!”. “A mãe dela deve estar orgulhosa nesse momento!”.
QUE ÓDIO!
Eu tinha desanimado de vez. Minha única oportunidade de aparecer na TV tinha ido por “escola abaixo”. Continuei então, apenas esperando mais uma oportunidade.
Passaram-se 2 meses do incidente, rs. Eu acordei cedo e fui nadar em um clube que fica próximo a minha casa. Quando chego ao clube quase morro de alegria! Estavam gravando uma entrevista com o prefeito! Uma entrevista que apareceria na televisão! Eu mal podia acreditar! Era a chance das minhas vizinhas me assistirem!
Cabeça de criança é inacreditável. Planos mirabolantes! Idéias impossíveis e situações inesperadas. Tudo com um retoque impecável de muita inocência. Inocência essa que os adultos tem uma dificuldade incrível de enxergar e entender. A idéia que tive nesse dia foi apenas uma, uma idéia inocente e infeliz:
Eu: (Tendo a idéia) “Se eu passar correndo entre a câmera e o prefeito, eles nem vão perceber, daí eu vou aparecer na televisão, e as vizinhas irão me ver. Como eu sou rápido na corrida, nem vão perceber que passei entre eles!”
Parecia infalível! Parecia apenas. Lá fui eu, corri o mais rápido que pude e passei entre eles. Talvez dessa vez minha velocidade tenha falhado, pois foi extremamente perceptível minha passagem entre eles. O “camera man” ficou irritadíssimo, e berrou pra mim:
Camera Man: Você é idiota moleque, estragando minha filmagem! O que deu em você?
Eu: (Extremamente mal e de cabeça baixa) Eu só queria aparecer um pouco na TV...
Camera Man: “Aparecer na TV” o caramba moleque. Quem vai querer assistir um moleque feio e sem educação como você na televisão?
E enquanto ele gritava, eu escutava. O prefeito só ficava olhando, não dizia nada, e olha que minha mãe tinha votado nele na eleição, cretino! Logo após a lascada do “camera man”, eu sai dali e sentei em baixo de uma árvore me sentindo a pessoa mais feia do mundo. Nem chorar eu conseguia, eu estava me sentindo muito mal. “Que burrice a minha!” eu pensava. Logo após terminar a entrevista com o prefeito, avistei o moço filmando as crianças pulando na piscina. Porque eu não esperei mais um pouco meu Deus? rs. E lógico, no outro dia lá estava eu e as vizinhas assistindo todas aquelas crianças felizes pulando na piscina. Foi trágico, dolorido. E lá estavam os famosos comentários:
Vizinhas: “Olha como aquele menino nada bem!”. “Ah nadar é tão gostoso né gente?”.
Péssimo.
Depois disso, eu via uma câmera e passava longe, tomei nojo, raiva, e quando anunciaram o fim do jornal da cidade na TV, eu agradeci do fundo do meu coração a Deus por isso! rs.
A mente criativa de uma criança é algo impensável para um adulto. São milhares de emoções conflitantes dentro delas, emoções que são expelidas 24hs por dia, sem pausa, e das milhares de formas possíveis. Hoje entendo o porquê que aparecer na TV era tão necessário para mim. Eu queria ser uma pessoa importante, uma pessoa elogiada e reconhecida. Infelizmente, enquanto criança, eu havia escolhido o caminho mais fútil que existia. A minha tão desejada importância eu acabei encontrando aos meus 10 anos de idade no curso de teatro de minha cidade, onde em minha primeira peça, na qual eu pronunciava apenas 6 falas, fui aplaudido por mérito. Eu sei que poucos daqueles aplausos eram direcionados a mim, ator quase figurante, mas os poucos que me atingiram já eram o suficiente para eu me sentir feliz, para eu me sentir importante!
Crianças são a criatividade em forma humana! Precisam ser vistas, elogiadas, aplaudidas de pé! Elas são merecedoras, todas, eu garanto. Deus confiou sua maior obra prima para nós adultos cuidarmos, mas infelizmente, humilhações e violência são artifícios constantes na relação adulto/criança.
Cuidar bem para ser cuidado um dia! E nunca se esqueçam, como dizia minha professora de teatro: “Nossos alunos de hoje são nossos médicos de amanhã, cuide bem deles para depois eles cuidarem bem de você”.
Por isso eu digo, MENTE DE CRIANÇA NÃO É BRINCADEIRA!
