
Nossa primeira seleção social acontece na escola, lá nos dividimos em grupos, onde nesses iremos interagir pelo ano todo, ou ás vezes até mesmo por todo o curso. Sempre temos um amigo preferido, com quem fazemos trabalhos juntos, deveres escolares e brincamos. Viramos “unha e carne” com aquela pessoa mágica que conhecemos na escola. O problema é quando não conhecemos ninguém, quando não conseguimos interagir no meio escolar, quando ficamos completamente sós no mundo “sala de aula”. Com isso passamos a odiar a escola, os colegas, os professores e a tudo. É como se nosso lugar no mundo não existisse, como se ninguém estivesse olhando pra gente, não nos sentimos aceitos.
Eu por exemplo confesso que demorei muito para descobrir qual era o meu verdadeiro lugar, sempre contei com os amigos errados por um bom tempo. Eu sempre sentia que de alguma forma estava implorando para ser amigo de alguém, implorando para ir à casa de alguém, e sempre torcendo para que o telefone de casa tocasse e fosse algum colega me chamando para brincar. Isso raramente acontecia. Com isso minha auto estima foi ficando cada vez mais baixa, tão baixa ao ponto de eu ter vergonha de mim mesmo. Passei a me achar a pessoa mais feia e esquisita do mundo. Eu tinha vergonha de mim mesmo. Lembro-me que ás vezes andando na calçada da rua eu avistava colegas da escola vindo em minha direção, eu trocava de calçada, pois não conseguia encará-los, tinha vergonha. Vergonha da minha roupa, do meu cabelo, dos meus óculos, da minha pele, enfim, eu vivia em constante fuga. Foi uma fase difícil, que acabou quando entrei nas aulas de Teatro, ou seja, acabou quando encontrei o meu lugar.
Jamais aceitei exclusão em meio aos meus alunos. Sempre fiz o possível para sanar os problemas sociais da sala de aula. Sempre que posso coloco meus alunos em conflito com suas preferências. Faço todos interagirem com todos, e não aceito discriminação. Mas “exclusão” é algo tão constante dentro do ambiente escolar que passei a acreditar que talvez “a seleção” fosse uma problemática constante da vida de qualquer aluno. Parecia que alguns alunos tinham vocação para serem “motivos de chacota”, rs, como eu fui. Todos sempre implicavam com o mesmo aluno, aquele estereótipo de sempre que se sentava na frente ou no fundo da sala, nunca no meio.
O que me fez “desenterrar” essas lembranças foi um acontecimento que venho observando em um grupo de alunos meu, e que hoje, teve um ápice. Para contar essa história, vou chamar meu aluno de Vitor:
Vitor tem 11 anos de idade, e é uma das crianças mais puras que já conheci. Uma pureza misturada com ingenuidade que fazem dele uma criança extremamente cativante para qualquer adulto, mas apenas para os adultos. Vitor conta piadas sem “pé nem cabeça”, faz comentários limpos e é extremamente inteligente e observador. É uma criança fantástica, e está lá, sempre com seu sorriso maravilhoso no rosto. Ele nunca falta às aulas, sempre decora seu texto, muito organizado com tudo o que faz. Veste-se de maneira simples e faz o possível para agradar a todos os colegas. Sempre em vão.
Na hora de fazer roda, ninguém quer dar a mão para o Vitor, não querem sentar ao seu lado, não querem fazer trabalho com ele. Sempre que podem fazem comentários humilhantes sobre as maneiras de Vitor agir, humilhações essas que Vitor recebe de cabeça baixa com um meio sorriso no rosto, sorriso esse que são para mim lágrimas presas em uma enorme tristeza. Mas ele sempre está lá, disposto a perdoar a todos, sempre disposto a ser amigo de todos. Quando Vitor se atrasa para chegar à aula (raramente), comentários do tipo “Ah tomara que ele não venha” são normais na sala de aula. Quando ele aponta na porta da sala de aula, caras de desprezo e irritação são constantes no rosto de todos os alunos, e lá está Vitor, entrando na sala com a cabeça baixa e seu meio sorriso no rosto, pensando cuidadosamente nas palavras que deve usar para conversar com seus “colegas”.
Sempre observei tudo isso, e sempre achei também, que Vitor estava alheio a tudo isso. Devido a sua pureza e ingenuidade plena, pensava eu que Vitor não se ofendia e nem mesmo percebia a rejeição que seus colegas tinham por ele. Eu nunca estive tão errado em toda minha vida.
Hoje Vitor chegou visivelmente alterado na escola, ele estava um pouco impaciente e agitado. Mas estava feliz e alegre como sempre, então não dei muita atenção para isso. Continuei minha aula normalmente. No meio da aula percebi uma alteração no ambiente, e quando me virei pra trás vi Vitor pulando a murros em cima de seu colega de sala. Corri e separei a briga. Levei Vitor para uma sala ao lado e me sentei para conversar com ele:
Eu: Vitor, porque você bateu naquele menino?
Vitor: (chorando e aos nervos) Não foi nada, bobeira...
Eu: Conta pra mim Vitor, não pode ter sido bobeira. Olha como você está nervoso. O que foi que ele disse a você?
Vitor: É que... Não foi nada, bobeira...
Depois de MUITO insistir, consegui a resposta que queria.
Eu: Vitor, o professor é seu amigo, quero te ajudar, me conta o que aconteceu!
Vitor: (aumentando o choro ao contar) É que ele falou mal da minha mãe, e disse que nem ela deve gostar de mim. (dando um berro) EU ODEIO SER EU!!!
Esse grito de Vitor simplesmente me paralisou. Ele odiava ser ele mesmo, e eu sabia exatamente do que ele estava falando. E percebi também como eu tinha sido um “Mocréio Sem Vocação” de não ter encarado esse fato de frente logo de início.
Vitor me abraçou e chorou muito, depois que ele se acalmou tivemos uma longa conversa. Tive muito cuidado para não usar frases prontas e sem valor como “Não ligue para o que ele fala.”, “Ele tem ciúmes de você.”. Eu sempre fui muito realista com todos meus alunos. SEMPRE. Expliquei a ele a dificuldade que eu mesmo tinha de me entrosar, e rolou até uma conversa engraçada:
Eu: Sabia Vitor que às vezes eu até mudava de calçada com vergonha de passar perto dos meus colegas?
Vitor: Nossa Professor, o senhor consegue ser pior do que eu hein?
Fiquei até vermelho com esse comentário dele, e nós dois rimos muito. A conversa de certa forma foi confortante, pois Vitor retomou sua alegria depois dela, e passou a respirar com mais calma. Foi embora pra casa de alma lavada, pois ele tinha dado o seu grito. Ele gritou “EU ODEIO SER EU!!!” bem alto para eu escutar. Agora eu sabia disso, e Vitor sabia que eu sabia, e isso o fez entender que não vai precisar mais caminhar sozinho, ele sabe que a partir de agora tem ajuda, ganhou um amigo, finalmente. Um amigo com o dobro de sua idade, mas um amigo que o aceita, do jeito que ele é. Hoje ele vai dormir sabendo que é aceito, pelo menos por uma pessoa, que já é o suficiente para ele querer voltar à escola.
Mesmo enquanto adultos excluímos. Como eu já disse, acredito que essa é uma problemática constante da vida. Escolhemos o meio ao qual vamos interagir, escolhemos quem merece escutar nossas idéias. Cada um possui seu lugar, Deus reservou um pedacinho de mundo para cada um, como me reservou para ser o mundo de Vitor na escola, mesmo que por apenas um ano. Meu entendimento sobre seus problemas não são em vão, arrisco a dizer que passei tudo o que passei na minha infância para ter esse pequeno entendimento sobre Vitor, para ajudá-lo, as proporções em quais Deus age estão além de nosso entendimento. O trabalho começa agora.
Vida de Criança não é Brincadeira!
OBS: Foto retirada do livro "Nós" de Eva Furnari, que trata o tema da "exclusão" de forma brilhante.

5 comentários:
"Deus reservou um pedacinho de mundo para cada um, como me reservou para ser o mundo de Vitor na escola"
Djalma, não tenha dúvidas de que para tudo debaixo deste céu em que Deus varre com seus olhos, há um propósito. Deus disse que aquele que fizesse tropeçar uma criança, melhor seria lhe pendurar uma pedra ao pescoço e ser lançado ao mar! (Lc.17:2)
Não canso de admirar esse seu empenho.
Além de tudo, vc escreve muito bem a respeito de suas impressões, um dia isso ainda dará um livro!
Infelizmente isso acontece muito Djalma, é uma pena crianças como o "Vitor" quase nunca encontrarem alguém para poderem conversar e dizer o que estão sentindo, assim levando adiante o sentimento de exclusão
Estou orgulhoso de você (como sempre!) o que você faz por aqui é fantástico!
Deve haver um modo de incluir o Vitor à turma. Um garoto que é legal não tem que ser percebido pela turma só quando chegar ao colegial (se é que ele vai resistir até lá).
PS - Você não é um mocréio sem vocação. Fique tranquilo.
Oi Djalma, fazia tempo que não passava por aqui. Que delícia ler seu blog! Não vou comentar nenhum assunto aqui escrito especificamente, mas sim, a beleza desse seu trabalho como um todo. Admiro muito você e o que você faz. PARABÉNS!
OI Djaaaaaaaaaa....enfim li, concordo com a Kelly, vc consegue expressar muito bem esse universo ao qual vc vive e tem a cada dia recriado, eu também já fui um Vitor, as vezes até hoje me sinto vitor....lindo de morrer estes escritos.
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