sábado, 1 de novembro de 2008

“Histórias de Amargar”

Iniciei minha profissão de professor muito jovem. Logo de cara quis enfrentar os maiores problemas que envolvem a profissão. Sentia que o fácil não me agradaria. O difícil me desafiou desde o início, e sempre corri em direção a ele. Todos nós profissionais da educação poderíamos passar horas contando histórias que vivenciamos. O problema que poucos de nós conseguiria contar do real ponto de vista. Apenas alguns engolem a amargura de difíceis dias de professor. A história que contarei abaixo vivenciei em um único dia. Foi uma experiência inesquecível.


Moro em uma cidade onde existem muitas escolas rurais, cada uma em um bairro especifico. Existem umas que ficam tão afastadas da cidade que quando chegamos nelas é difícil acreditar que ainda estamos no mesmo município. Uma amiga minha, chamada Tati, que trabalha em uma dessas escolas rurais, um dia me convidou para ministrar uma aula de teatro para os alunos dela e da outra sala da tal escola rural. Ela (muito esperta, rs!), logo me “atiçou” explicando a realidade dos alunos com os quais eu lidaria. É claro que ela deixou que eu descobrisse as maiores surpresas por conta própria, mas o que ela me contou de inicio já foi o suficiente para que eu aceitasse o convite sem pensar duas vezes.

Acordei bem cedinho (especificamente ás 05:30 da madrugada! rs!), e fui até o ponto onde pegaríamos a condução. A viagem até a escola parecia uma eternidade, eu nunca imaginei que existia um bairro tão afastado da cidade como esse. Chegamos ao tal bairro, que se distribui por um morro bem ao lado da estrada que paramos. O bairro era minúsculo, e logo de cara consegui contar nele 3 bares. No bar mais próximo, estavam 4 senhores sentados a mesa, que olhavam Tati e a mim com um olhar vazio, nos olhavam como se fossemos invasores. Ela logo me disse que essa reação era normal.

Andando pelas ruas do bairro (ruas precárias e sujas), Tati me disse que antes de ir para a escola, tínhamos que buscar uma aluna. Eu logo perguntei o porque da necessidade de buscar essa aluna, e ela me explicou que se tratava de uma menina de 8 anos que possuía depressão infantil. A menina se trancava no banheiro e só a ela (a Tati) conseguia tirá-la de lá. A casa da menina era muito velha e humilde. Rapidinho saiu de lá Tati com a aluna. Uma menina bem pequena, com um corpo visivelmente fraco. A aparência da menina era péssima. Olheiras profundas e andar desengonçado. A menina foi andando á nossa frente, e aproveitando essa oportunidade, Tati em contou que essa garota era filha do avó com a irmã. Ou seja, o pai molestou a filha, e disso nasceu essa menina cheia de problemas de saúde. Ser irmã da mãe, e filha do avô não deve ser fácil. Cortou meu coração ver o caminhar daquela criança. Daquela criança que não entendia a própria vida.
Chegamos à escola. Péssima! A pior estrutura que já vi, se é que aquilo pode ser chamada de escola. A “escola” eram duas salas de blocos a vista, que ficavam lado a lado, divididas por uma parede que ainda não estava terminada. Escutava-se tudo da sala ao lado, era impossível ministrar aulas ali. E o pior de tudo. Em uma sala funcionavam a 1º e 2º série do ensino fundamental juntas, e na outra a 3º e 4º série do ensino fundamental, também juntas.
“Funcionavam”? Fui gentil em usar essa palavra.


Os alunos eram estranhos. Todos de idades diferentes um do outro. Pré adolescentes de 12 anos juntos com crianças de apenas 8 anos. Uma mistura heterogênea, que nunca produziria resultados. Primeiro fui conhecer a sala da Tati, que era a sala da 1º e 2º série. Conversei com eles. Tímidos, mal me olhavam nos olhos. Crianças sem esperança alguma, machucadas pela vida, crianças que nunca foram crianças. Conversei com eles, lhes fiz perguntas, poucos responderam. A Tati logo lhes deu uma atividade para fazer, logo depois me chamou a mesa dela para me mostrar umas redações que esses alunos haviam feito. O tema das redações era “Drogas”. Li todas, e teve uma, que quando li me arrepiou. A redação foi escrita por um menino de 8 anos, com uma caligrafia difícil e palavras assustadoras. Vou transcrever essa redação abaixo, com as palavras dele, que ainda existem na minha memória:

“ O Uso de Drogas


Meu pai chegava fumado de maconha e cheirado de cocaína em casa. Ele batia na minha mãe, em mim e na minha irmã. Na minha irmã não tinha problema ele bater, pois minha mãe me disse que ela tem uma “solitária” na cabeça e vai morrer logo. Mas em mim e na minha mãe ele não podia bater. Meu pai devia dinheiro pra um homem, esse homem ficou bravo e matou meu pai. Agora que meu pai morreu somos felizes.”

Era basicamente isso. O que comentar? Nada a comentar. A irmã desse garoto estudava nessa sala também, e logo a conheci. Uma menina muito obesa, loira, de olhos azuis e pele queimada pelo sol. A solitária havia sido curada, retirada dela há um mês atrás, graças a uma assistente de saúde que visitou o bairro e ficou sabendo do caso. GRAÇAS A DEUS.
Levei essa e a outra sala juntas até o terreno que ficava ao fundo da escola, para ministrar uma aula de teatro. Como as salas eram pequenas, pude trabalhar com elas juntas. Conversei muito com eles antes de qualquer coisas. Contei piadas, eles riram. Perguntei sobre o que eles achavam da escola, eles não responderam. Perguntei quem ali era feliz, todos levantaram as mãos. Perguntei quem era triste, apenas um levantou a mão. Levantou apenas a mão, pois a cabeça continuava como sempre, abaixada, olhar fixo no chão. Perguntei a ele:

Eu: Você pode me contar porque é triste?
João: (Esse era o nome desse garoto) Você quer saber mesmo?
Eu: Claro, adoraria escutar.
João: Sabe o que é “Tiu”. Minha mãe levou um homem pra morar com ela lá em casa agora. E esse homem não gosta de mim.
Eu: Mas por que ele não gosta de você?
João: (Ainda olhando para o chão) Ah “Tiu”, tem noite que ele não deixa eu dormir dentro de casa. E ontem choveu sabe, daí eu tive que dormir no galinheiro, molhou todo meu caderno.
Eu ao escutar isso fiquei petrificado. Parado no tempo. Sem reação. Insisti:

Eu: Mas por que ele não deixa você dormir dentro de casa?
João: Ah “Tiu”, é que ele quer fazer “as coisas” com a minha mãe né? Daí ele não gosta que eu fico dentro de casa.
Eu: E como é que você sabe que ele faz “coisas” com a sua mãe?
João: É só ir na janela que a gente vê né?


E todos na roda soltaram uma sarcástica risada. Não existia inocência ali. Quem sabe, nem mesmo pureza.


Continuei com a aula, com uma única coisa em meu pensamento, que chegando na cidade ia direto no conselho tutelar denunciar essa família. E é lógico que FUI, mas essa é outra história.
Conheci outro garoto. Um garoto cego. Que estudava ali também. A professora dele me explicou que ele ficou cego jogando futebol. Ele caiu e bateu com a cabeça violentamente em uma pedra. Perdeu a visão. Esse garoto adorava escutar músicas. Mas ele só podia escuta-lás quando o pai o deixava relar no rádio. Essas vezes eram raras. Comprei um rádio para ele, mas depois fiquei sabendo que a grande usuária do mesmo era a mãe. Que descaso meu Deus. Que lugar era esse? Não sei, até hoje não sei. O bairro era um quarteirão, um quarteirão com 5 bares, que serviam de farmácia, papelaria. As crianças compravam cadernos e lápis em meio a bebedeiras dos adultos.
Chegou a hora de ir embora. Estávamos na estrada esperando a condução. Enxerguei do outro lado um dos alunos sentado na beira da estrada. Fui até ele. Ele se chamava Paulo:

Eu: Oi Paulo. O que você está fazendo sentado aí?
Paulo: Eu estou esperando meu amigo chegar da escola dele, pra brincar com ele. “Jajá” ele chega.
Eu: Mas você só tem ele como amigo? Não têm outros aqui para você brincar?
Paulo: Tenho sim, mas eu gosto de ir brincar na casa dele, pois ele é o único que me oferece coisas pra comer.

Meu Deus! Eu podia ter ficado sem essa!

Não estava mais agüentando tanta tristeza. Tati me explicou que os pais desse menino moravam em uma fazenda muito afastada desse bairro e só podiam buscá-lo por volta das 19:00. Então ele almoçava a merenda escolar, e passava o dia todo se alimentando de favores do pessoal do bairro. Um menino de 7 anos de idade, se alimentando por favores. Cruel.


O ônibus chegou. Entrei calado, viajei calado, desci calado. Precisava processar isso tudo. Cheguei em casa, vi aquele almoço pronto, almoço que eu muitas vezes joguei no lixo. Fiz meu prato de comida. Sentei-me frente a ele, e fiquei imaginando aquele menino sentado na beira da estrada, pensando no que iria comer, isso se comesse. Almocei. Comi como se comesse pela primeira vez na minha vida. Senti o verdadeiro gosto dos alimentos. E agradeci a Deus, agradeci muito a Deus pelo que estava mastigando. Aliás, agradeci á Deus por tudo. Pela minha casa, minha escola, minha saúde, meus pais, meu emprego. POR MINHA VIDA!


Lugares como esse bairro? Existem muitos no Brasil, piores até, muito piores, O problema é que ninguém enxerga. Preferimos enxergar o bonito ao feio. Olhos fechados, vida mal vivida. Viver é ajudar, proporcionar oportunidades. Não deixar pra trás aquilo que está ao nosso alcance. Como aquelas crianças dormem? Quanto tempo elas dormem? Elas dormem? O que elas comem? Como são tratadas pelos seus pais? São abraçadas? São beijadas? Essas crianças são amadas? Não sei... acho que não.

Vida de professor. VIDA!

12 comentários:

Angela Lomônaco disse...

Já passei por situações como essa...dá um vazio, né? Uma vontade de virar anjo e ter poder de acalantar mesmo quando o acalanto não consegue curar... só tornar as dores mais amenas.

Djalma Germiniani disse...

Realmente, é isso mesmo que a gente sente Angela! Obrigado pelo seu post! Beijos!

Unknown disse...

Muito duro, muito cruel... na época da eleição garanto que aparece político por lá pedindo voto. Vc precisa contar agora o capítulo sobre a denúncia que vc fez sobre esse caso.

Unknown disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Unknown disse...

Era aquela galinha que tinha que ir dormir no galinheiro.

Djalma Germiniani disse...

ÓTIMO PAULA!!!!!!!!!!!!! Perfeito!

Adriana disse...

Amargar
Ama
Sem sabor
Viela do coração sem eira nem beira
amarga a vida nesse dissabor que a vida é....é a vida.....e a vida continua....gosto amargo de fel.

Haja coração....

Adriana disse...

Não vou ler mais...to passando mal...que revolta...que dor....

Unknown disse...

Nossa! Acho um absurdo que a sociedade roube dessa maneira a inocência de nossas crianças... A frase do Pedro "Tenho sim, mas eu gosto de ir brincar na casa dele, pois ele é o único que me oferece coisas pra comer" é digna de ser exibida no programa do Chaves, mas sem um pingo de graça...

São de fato "histórias de amargar", e com certeza esse amargor da infância se revertará em rebeldia na adolescência e o ciclo da violência se manterá pela vida adulta a menos que mediadores intervenham na história e dê direção a essas mentes desnorteadas.

Unknown disse...

É Djalma, a vida é uma verdadeira caixinha de surpresas!
Encontramos de tudo por aí!!!
O que importa realmente é sermos sómente do bem, fazendo tudo pra seguirmos os passos de nosso Mestre Jesus!
Cheguei a uma conclusão nessa vida:
Viemos aqui pra esse mundinho com a missão de carimbarmos nosso passaporte pra eternidade e se seguirmos os passos do Mestre teremos uma eternidade repleta de alegria e paz!
JESUS, o único caminho!!!

Unknown disse...

Nossa Djalma, chorei ao ler isso,as vezes reclamamos da vida e tem coisas muito cruel...
Ser professor é lidar com tantas coisas...

Os Guaranetes disse...

E eu que pensei que já tinha visto e escutado muita coisa nessa vida...

Força e coragem pra tu continuar nesse caminho, rapaz!
Você ainda vai encontrar algumas crianças que precisam de você...

Abraço!
Rafael