quinta-feira, 18 de setembro de 2008

Uma História de Renovação!


Existem alunos que nós Professores nunca esquecemos, seja ele arteiro, esperto, gentil. Existem alunos que simplesmente marcam nossa vida. Não é uma questão de preferência, é apenas uma questão de ligação, e empatia. Aliás, nós Professores somos humanos também, rs!


Acredito que essa será uma boa história de abertura, uma história que foi um tremendo “lava cara” para mim. Vou chamar esse menino de Pedro. Na época ele tinha 6 anos de idade, era aluno do antigo “Pré-3”, que hoje é o 1º Ano do Ensino Fundamental.


Pedro era um menino muito carente, principalmente de pai. O pai era um homem “grosso” que não tinha a mínima paciência com Pedro. Pedro sempre chegava atrasado na escola, e também era o ultimo a ir embora. Me lembro de um dia, que a Diretora da Escola, pediu ao pai de Pedro que viesse buscá-lo no horário correto da Saída, pois Pedro sempre era o ultimo a ir embora, ficava lá no banco, sentado, horas a fio com a atenção fixa no barulho dos carros que viravam a esquina da rua da Escola. Nesse dia, o pai de Pedro disse assim para a Diretora, com essas exatas palavras que não dá para esquecer:


Pai do Pedro: Além de pagar essa escola, você ainda quer exigir que eu busque ele na hora certa? Por mim eu deixava esse menino aqui na segunda e buscava ele só na sexta!


E lá estava Pedro, sentado no banco, escutando essas “doces” palavras que eram “recitadas” por seu pai, pelo homem que tinha lhe dado a vida, pelo homem que ele mais amava no mundo.
Esses fatos auto-explicavam a carência de Pedro.

Toda vez que ele chegava na escola, a primeira coisa que Pedro fazia era me procurar, para me dar um abraço e um beijo, e lógico, para ao mesmo tempo, recebê-los. Acho que Pedro me enxergava em sua vida como uma figura Paterna. Eu sempre tentava impedir isso, pois eu era apenas o Professor, e não o pai. Mas era difícil. Pedro era o “filho sonho” de qualquer pai, o único que não enxergava isso era o pai do Pedro, aquele babaca (me desculpem rs)! Um dia perguntei para ele:


Eu: E aí Pedro? Como foi seu dia hoje?
Pedro: Hoje Professor Djalma, aconteceu uma coisa “muito alegria” lá em casa!
Eu: (Com a maior felicidade) Mas isso é ótimo! O que foi que aconteceu de alegre na sua casa?
Pedro: (Com uma voz amarga) Eu derrubei sem querer o prato do almoço hoje, daí meu pai ficou muito bravo. Ele pegou o meu fantoche “Alegria” e com ele bateu em mim.


Eu simplesmente fiquei mudo, não sabia o que falar. Mas arrisquei:


Eu: E você esta bem Pedro? Seu pai te machucou muito?
Pedro: Estou bem sim, só te contei porque você perguntou mesmo. Mas sabe Professor Djalma, vou te contar um segredo. Eu joguei o “Alegria” no lixo! Não gosto mais dele.


E Pedro foi para a sala. Eu fiquei ali, parado, boquiaberto, observando aquele menino indo para a sala, o caminhar dele era triste, tudo nele era triste.


Enfim! Agora o fato marcante que vivi com Pedro.


Tem dias que estamos um tremendo “Stress”. Não queremos fazer nada, MUITO MENOS ir trabalhar. Mas fazer o que? Professor é o que mais tem por ai e não podemos dar brecha rs!

Acordei muito mal, tinham acontecido umas coisas péssimas na minha vida, e eu estava muito mal mesmo. Segui a rotina, arrumei minhas coisas e fui trabalhar. Cheguei na escola e sentei na mesa para organizar uns papéis antes de ir pegar a sala. Como de costume, lá veio o Pedro, atrasado como sempre, com a “lancheira” pendurada de um lado e segurando as pesadas apostilas. Nem mochila o menino tinha, era um descaso total!
Pedro veio e me deu um abraço e um beijo. Ele imediatamente percebeu que eu não estava bem, ele possuía uma sensibilidade incrível! Com a maior cara de dúvida do mundo ele me perguntou:


Pedro: Professor Djalma, está tudo bem com você?
Eu: (Pensei rápido, mas desabafei) Sabe Pedro, existem dias que eu sinto vontade de nascer de novo.
Pedro: (Sem entender nada) Nascer de novo?
Eu: (Um pouco mais a vontade) É, nascer de novo, recomeçar, ter uma nova vida, fazer tudo de novo. Ter outras oportunidades.
Pedro: (Com uma agilidade que me arrepia até hoje, ele soltou o veredicto) Mas Professor, isso é impossível, nós só temos uma vida, por isso temos que fazer dela o mais feliz possível. Temos que fazer dela o melhor possível. (Após falar, foi embora pra sala).


- Um menino de 6 anos de idade ensinou-me a valorizar a minha única vida. –


Eu chorei muito depois disso, muito mesmo. Me senti envergonhado, me senti um inútil. Um menino como ele, que sofre todos esses “crimes emocionais familiares” conseguia enxergar mais esperança na vida do que eu. Foi uma bomba para mim, naquele momento. Ainda por cima tive que encarar meu dia, ministrei aula como um “Zumbi”. Eu estava vazio, apático.
Essa lição que Pedro me deu, corre em mim até hoje. Passei a ser mais grato por tudo o que tenho, passei a enxergar o lado melhor, o lado positivo. Em sinceros 5 minutos minha vida mudou! MUDOU PARA MELHOR! Quanto ao Pedro? Bem, vou deixá-los na curiosidade sobre seu destino, mas prometo que mais pra frente volto aqui para contar. Só um adiantamento, serão ótimas noticias!


“Por isso eu digo: Conversa de Criança não é Brincadeira!”

8 comentários:

Anônimo disse...

Mano que Historia heim:? Ainda bem que Deus em sua Generosidade colocou vc no caminho destas crianças
Te Amo viu?

Unknown disse...

Criança, dádiva de Deus.
Com sua inocência, sao verdadeiros Sábios!
Mas olha amigo, já encontrei crianças cravadas de mal apego, resultado de uma familia sem base, sem princípios e amor.
Tudo vale a pena.

TÊTE-À-TATI disse...

Oi Djalma....em primeiro lugar, parabéns pelo seu Blog, adorei!!!
E que história mais bonita.... eu tbm como professora concordo plenamente com seu texto de abertura... que história linda!!!! Conviver de perto com criança e sentir sua pureza, nos torna muito mais sensíveis!
Um beijo da amiga
Tati Bueno

Unknown disse...

Djalma, que trabalho lindo! Pode ter certeza que só de estar indo ao encontro delas todos os dias, seu lugar no céu já está garantido! Criança é uma dádiva de Deus. Adorei a história, o blog. Parabéns!
Aonde voce trabalha?

Angela disse...

Olá querido...vc sempre me surpreendendo...adorei o blog...adoro vc também.
Com carinho da ex professora...agora aprendiz...
Angela

Unknown disse...

Djalma, que idéia linda!
Mas vc partiu meu coração com essa história do Alegria. Ainda bem que Deus te deu a ele como professor, alguns bálsamos sobre feridas são tão essenciais para o futuro que vc nem imagina!
Tenho deparado com professores hoje que deveriam ter algumas aulas com vc...
Não vejo a hora de ler mais coisas.
Parabéns pelo blog. Bjsss.

Adriana disse...

sem palavras

Adriana disse...

sem palavras